
Com a chegada do fim de ano, um período tradicionalmente associado a celebrações e encontros familiares, muitas pessoas relatam sentimentos de tristeza, solidão e melancolia. Embora essas emoções possam fazer parte da experiência humana, especialistas alertam que, em alguns casos, elas podem indicar um quadro que exige atenção profissional.
Segundo a psiquiatra e sócia do Hospital Dia Reavivare, Dra. Raquel Mendes, o período pode funcionar como um gatilho emocional, especialmente para quem já convive com transtornos mentais.
“No momento de final de ano, muita gente pensa que essa tristeza é normal. De fato, algumas pessoas apresentam um certo abatimento, mas quem tem depressão pode recair. Algumas pessoas desenvolvem episódios depressivos nessa época. É um período que celebra a felicidade, e muitas pessoas não se sentem inseridas nesse contexto. Surge o sentimento de solidão, associado à própria doença, à ansiedade e à pressão social para estar bem o tempo todo, o que é irreal”, explica.
A médica ressalta que o Natal e o réveillon também podem intensificar memórias dolorosas, como perdas recentes ou frustrações acumuladas ao longo do ano. “Às vezes a pessoa atravessa o Natal carregando uma perda, um luto ou uma situação muito difícil. Nesse clima festivo, vem a melancolia. Isso pode ser algo passageiro ou pode demonstrar um transtorno mental. Quando há alteração de sono, de apetite e uma tristeza que leva ao isolamento por mais de 15 dias, precisamos acender um sinal de alerta. Esse é o principal critério clínico”, destaca.
O que dizem os estudos científicos
A melancolia associada a variações sazonais do humor é descrita na literatura médica como Transtorno Afetivo Sazonal (TAS ou SAD, na sigla em inglês), um padrão de episódios depressivos que se repetem em determinadas épocas do ano, mais frequentemente no outono e inverno.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 no Journal of Affective Disorders apontou que a prevalência global do Transtorno Afetivo Sazonal é de cerca de 5% da população, enquanto formas menos intensas, conhecidas como SAD sub-sindrômico, podem atingir aproximadamente 9%. O estudo destaca ainda que fatores como latitude e menor exposição à luz solar influenciam diretamente esses índices.
Outro estudo, publicado em 2021 na revista BMC Psychiatry e disponibilizado na base científica PubMed Central (PMC), identificou que 12,7% dos participantes avaliados apresentavam SAD, com associação significativa à maior morbidade psiquiátrica geral, reforçando a importância do reconhecimento clínico precoce.
De forma mais ampla, revisões epidemiológicas indexadas no PubMed, incluindo estudos publicados entre 2000 e 2010, indicam que a prevalência do Transtorno Afetivo Sazonal pode variar entre 1% e 10% da população, dependendo do clima, da região geográfica e dos critérios diagnósticos utilizados.
Quando buscar ajuda
De acordo com a Dra. Raquel Mendes, sentir tristeza em datas simbólicas não significa, automaticamente, adoecer mentalmente. No entanto, a persistência dos sintomas por mais de duas semanas, associada a prejuízo funcional, isolamento social e alterações biológicas, deve ser avaliada por um profissional de saúde mental.
“Não é só porque é fim de ano. Quando a tristeza permanece, quando há impacto na rotina e sofrimento contínuo, isso não deve ser naturalizado. Procurar ajuda é um ato de cuidado”, orienta.
A especialista lembra que há tratamentos eficazes, que incluem acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia e, quando necessário, uso de medicação, além de estratégias de autocuidado que ajudam a atravessar períodos emocionalmente mais sensíveis.
A mensagem principal, segundo ela, é clara: tristeza faz parte da vida, mas sofrimento prolongado não deve ser ignorado.
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