O resultado, segundo os autores, foi animador do ponto de vista físico: a intervenção conseguiu, nas simulações, enfraquecer a força desses eventos — desde que fosse aplicada cedo o suficiente e por tempo suficiente.
“Uma das maiores preocupações sociais em torno da geoengenharia é o fato de que, se a usarmos para reduzir riscos climáticos de longo prazo, temos que aplicá-la continuamente, por tempo indefinido”, explica Jessica Wan, pesquisadora que liderou o estudo e hoje é pós-doutoranda na Universidade de Chicago.
“Se conseguíssemos atuar sobre a variabilidade natural, poderíamos obter alguns dos benefícios da geoengenharia sem precisar empregá-la indefinidamente.”
É essa a diferença que os autores destacam em relação a outras propostas de geoengenharia: em vez de tentar segurar o termômetro do planeta ano após ano — um compromisso de décadas, com todos os riscos políticos e técnicos que isso implica —, a ideia seria agir só durante a janela de alguns meses em que um El Niño está se formando.
Katharine Ricke, professora da Scripps Oceanography e coautora do estudo, costuma estar do lado dos cientistas que pedem cautela com a geoengenharia.
Mas, segundo ela, esse experimento acidental da natureza deu um fôlego extra à pesquisa.
“Foi o avanço-chave para que isso se tornasse uma pergunta de pesquisa viável”, afirma. “Sem essa oportunidade de validação, acho que nossas descobertas não seriam tão confiáveis.”
Nas simulações, quanto mais cedo o clareamento das nuvens começava — no início da fase de formação do El Niño — e quanto mais tempo durava, maior era o efeito de conter o fenômeno. Já intervenções tardias, feitas só no auge do evento, tinham pouquíssimo impacto.
Os pesquisadores também encontraram um efeito colateral que não pode ser ignorado: nas simulações mais bem-sucedidas em enfraquecer o El Niño, a La Niña seguinte tendia a chegar mais cedo e, em alguns cenários, mais intensa — um lembrete de que mexer em uma peça do sistema climático quase sempre move outras.
Mesmo assim, para Ricke, a ideia merece ser levada a sério. “É uma forma diferente de pensar a geoengenharia”, diz a pesquisadora.
“Precisamos entender muito mais, mas, se existe uma maneira de usar isso, somada às demais ferramentas de redução de risco, para mitigar El Niños, por que não considerar?”
Um resultado de laboratório
Vale reforçar: nada disso foi testado no mundo real, e os próprios autores tratam o trabalho como uma prova de conceito, não como um plano de ação.
⚠️ Toda a análise foi feita dentro de um único modelo climático e os pesquisadores não têm conhecimento de nenhuma proposta para aplicar a técnica no El Niño que está se formando agora, em 2026, apontado por previsões sazonais como potencialmente forte.
Especialistas independentes ouvidos pelo Science Media Centre da Espanha, que não participaram do estudo, reforçam essa cautela.
Carlos García-Soto, pesquisador do CSIC (Instituto Espanhol de Oceanografia), destaca que o próprio time de autores foi transparente sobre os limites do trabalho.
“O estudo é uma contribuição científica interessante porque explora uma possibilidade física por meio de simulação climática. No entanto, convém interpretar seus resultados com prudência (…) modificar deliberadamente um sistema climático tão complexo quanto o El Niño exige um nível de evidência muito superior ao necessário para demonstrar que uma hipótese é fisicamente plausível”, avalia.
Já o meteorologista Ernesto Rodríguez Camino, presidente da Associação Meteorológica Espanhola, vê no estudo a abertura de uma nova frente de pesquisa, ainda que distante de qualquer aplicação prática.
“É de se supor que este trabalho dará origem a muitos outros trabalhos que explorem formas de mitigar extremos meteorológicos e climáticos, origem de tantas perdas humanas e materiais”, diz.
Por trás da cautela dos especialistas está o tamanho do que está em jogo: segundo os próprios autores do estudo, eventos de El Niño de grande magnitude já custaram à economia global a marca de trilhões de dólares em prejuízos — o tipo de conta que ajuda a explicar por que, mesmo cercada de incertezas, a ideia de tentar “desarmar” um El Niño antes que ele aconteça já é considerada, por essa equipe de cientistas, uma pergunta que vale a pena continuar investigando.
🌎 O que é o El Niño — e por que ele importa tanto
O El Niño é um aquecimento fora do normal das águas do Oceano Pacífico na faixa próxima à linha do Equador.
Ele faz parte de um ciclo natural do clima que alterna fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e neutras — com impactos em várias regiões do planeta.
Esse aquecimento muda a circulação da atmosfera e altera o padrão de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.
No Brasil, os efeitos costumam ser desiguais: o Sul tende a ter mais chuva, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos.
O fenômeno também influencia a temperatura global. Em anos de El Niño mais intenso, o planeta costuma registrar calor acima da média, somando-se ao aquecimento global.
A intensidade varia de um evento para outro, assim como os impactos. E, com o planeta já mais quente, mesmo episódios moderados podem ter efeitos mais fortes do que no passado.
Condições geradas por El Niño podem facilitar as queimadas e impactar produções agrícolas. — Foto: Michael Dantas/AFP via DW
🌧️ Possíveis impactos no Brasil
Historicamente, o El Niño altera o padrão de chuva e temperatura no país e causa:
- aumento de chuva no Sul, com risco maior de eventos extremos;
- redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste;
- mais irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste;
- maior frequência de ondas de calor.
Segundo especialistas, um dos principais efeitos esperados é o aumento de períodos prolongados de calor, especialmente na primavera e no verão.
Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator por trás das mudanças no clima.
Com os oceanos já mais quentes do que a média histórica, a expectativa é de que os próximos meses sigam registrando temperaturas elevadas em várias regiões do planeta.
G1