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Por que Milei está incentivando argentinos a ‘tirar os dólares debaixo do colchão’

No início de 1975, Rubén Stupiello decidiu vender uma casa em Buenos Aires e depositar seus pesos em um banco argentino, atraído pela alta taxa de juros que permitiria a ele ganhar mais dinheiro com seu dinheiro.

A estratégia funcionou, mas a fase boa durou pouco.

Poucos meses depois, o então ministro da Economia argentino, Celestino Rodrigo, anunciou um pacote de medidas econômicas, em 4 de junho de 1975, que resultou em uma desvalorização do peso em mais de 100%.

Desconcertado com a situação, Rubén correu para sacar seu dinheiro do banco. Ao fazer isso, ele percebeu que os pesos equivalentes ao valor de uma casa eram suficientes apenas para comprar um carro.

O “Rodrigazo”, como o plano econômico de Celestino Rodrigo ficou conhecido, acabou convencendo muitos argentinos de que a melhor maneira de economizar dinheiro em seu país era em dólar, e não na moeda local que, desde então, tem se caracterizado por perder valor.

“Na Argentina, não confiamos na nossa moeda. Após décadas de desvalorizações muito acentuadas, sabemos que quem economizou em peso nos últimos 50 anos, perdeu em comparação com quem economizou em dólar”, explica Guido Zack, especialista em análise econômica, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Mas poupar em dólar e depositar a moeda americana nos bancos tampouco se mostrava uma garantia.

Em 2001, em meio a uma das piores crises econômicas, o então ministro da Economia, Domingo Cavallo, impôs restrições à retirada dos dólares que os correntistas tinham no sistema bancário.

Esta medida, que ficou conhecida como “Corralito”, culminou na queda do então governo e na “pesificação” forçada dessas economias em dólares a uma taxa de câmbio mais baixa do que a vigente antes da crise.

A desconfiança em relação ao peso foi agravada pela desconfiança em relação aos bancos, de modo que muitos poupadores esconderam suas cédulas de dólar dentro de casa para uso futuro.

Assim nasceu a expressão “debaixo do colchão”, uma prática que rapidamente se tornou um hábito entre os argentinos.

No início de 2002, milhares de argentinos bateram enfurecidos nas portas dos seus bancos, exigindo. a retirada de suas economias, — Foto: Getty Images via BBC

No início de 2002, milhares de argentinos bateram enfurecidos nas portas dos seus bancos, exigindo. a retirada de suas economias, — Foto: Getty Images via BBC

O Instituto Nacional de Estatística e Censo estima que aproximadamente US$ 246 bilhões estão fora do sistema bancário argentino, de acordo com o relatório “Balança de pagamentos, posição de investimento internacional e dívida externa” de 2024.

Esse valor supera em muito as reservas internacionais do Banco Central da Argentina, que giram em torno de US$ 38,3 bilhões — e estima-se que representem 45% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

É por isso que o governo de Javier Milei quer reinserir esses dólares no sistema.

“Aqueles que têm dólares debaixo do colchão são os heróis que vão levar este país adiante”, disse o presidente no Congresso Econômico Argentino em abril passado. 

“Você não guardou dólares debaixo do colchão porque odeia o país. Você fez isso porque, do outro lado, havia um grupo de criminosos que te roubou com o imposto inflacionário”, concluiu.

‘Debaixo do colchão’

 

Para isso, o governo anunciou em meados de maio um plano que permite que as pessoas com economias não declaradas usem esse dinheiro para comprar uma propriedade no valor de até US$ 43 mil ou depositar até US$ 85 mil em investimentos a prazo fixo nos bancos sem justificar sua origem.

“Essa mudança de regime tem como alvo devolver a liberdade às pessoas, e deixar de pensar que as pessoas que tiveram de se refugiar no mercado informal são criminosas”, acrescentou o ministro da Economia, Luis Caputo.

A medida foi anunciada após a bem-sucedida regularização de ativos da ordem de US$ 22,5 bilhões que o governo alcançou no ano passado — e o novo empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de US$ 20 bilhões.

“Me disseram, não sei se é verdade, que há mais de US$ 200 bilhões debaixo do colchão, e só Deus sabe onde. Se esse dinheiro for investido na Argentina, imagina como seria o país”, afirmou a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, em um evento com legisladores em Washington.

Mas do que estamos falando quando os argentinos se referem aos dólares “debaixo do colchão”, e o que eles têm a nos dizer sobre o problema crônico de escassez de divisas na sua economia?

Milei descreveu as pessoas que têm economias em dólares não declaradas na Argentina como 'heróis que vão levar este país adiante'. — Foto: Getty Images via BBC

Milei descreveu as pessoas que têm economias em dólares não declaradas na Argentina como ‘heróis que vão levar este país adiante’. — Foto: Getty Images via BBC

Santiago, um empresário da área de gastronomia de 37 anos, diz que nunca depositou suas economias em um banco, e que adotou esta postura, assim como uma grande parte dos argentinos, observando a experiência da sua família nas últimas décadas.

“Meu pai perdeu US$ 40 mil na década de 1990, da noite para o dia, quando o banco que ele usava fechou. Depois, no meio da crise de 2001, outro banco não deixou que ele sacasse suas economias por um tempo. Não quero que isso aconteça comigo”, diz ele.A expressão “dólares debaixo do colchão” se refere às economias não declaradas, na moeda americana, que não entram no sistema. Este dinheiro pode estar escondido dentro de casa, guardado no cofre físico de um banco ou depositado em contas no exterior.

“A maneira de nos proteger das desvalorizações e da inflação é economizar em moeda estrangeira, e guardar cédulas de dólar. Alguns de nós colocam essas cédulas debaixo do colchão, o que é um eufemismo para dizer que escondemos os dólares em nossas casas”, explica Guido Zack.

Segundo o especialista, os incentivos para depositar economias em peso no banco não conseguem compensar a inflação crônica do país. Portanto, alocar pesos em um investimento de prazo fixo na moeda local nem sempre acaba sendo favorável.

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