Lançado em 2006, O Diabo Veste Prada se tornou um clássico da cultura pop ao retratar, com humor e tensão, os bastidores de uma grande revista de moda. A trama acompanha Andy Sachs, uma jovem jornalista que entra nesse universo ao trabalhar como assistente de uma poderosa editora. O que parece um emprego dos sonhos rapidamente revela um ambiente marcado por pressão extrema, hierarquia rígida e expectativas quase impossíveis. A força da história vem justamente do seu ponto de partida: o livro de Lauren Weisberger, baseado em sua experiência real na Vogue. A partir daí, os personagens foram construídos como combinações de pessoas reais — figuras influentes que ajudaram a moldar a indústria da moda contemporânea.
Vem saber mais!
Anne Hathaway, Anna Wintour e Emily Blunt
Andy Sachs: a experiência transformada em narrativa
A principal inspiração para Andy é a própria Lauren Weisberger. Formada em língua inglesa pela Cornell University, Weisberger entrou na Vogue no fim dos anos 1990 como assistente de Anna Wintour. Seu trabalho envolvia tarefas logísticas, organização de agenda, demandas urgentes e uma rotina intensa – muitas vezes sob pressão constante.
Depois de deixar a revista, ela trabalhou na publicação Departures, da American Express, enquanto começava a escrever à noite. Foi nesse período que desenvolveu o manuscrito de O Diabo Veste Prada, publicado em 2003.
Lauren Weisberger
O livro rapidamente se tornou um best-seller global, abrindo caminho para uma carreira sólida como autora. Entre suas obras, estão A Vingança Veste Prada (2013) e When Life Gives You Lululemons (2018), que expandem o universo da história original.
Mais do que inspiração, Weisberger é responsável por transformar uma experiência pessoal em um retrato acessível de um sistema fechado.
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Miranda Priestly: poder, influência e construção de imagem
A figura central por trás da personagem, como muitos já sabem, é Anna Wintour. Nascida em Londres, Wintour construiu sua carreira no jornalismo de moda desde os anos 1970, passando por redações como Harper’s Bazaar e a Vogue britânica antes de assumir a edição da Vogue norte-americana em 1988.
Sob sua liderança, a revista passou por uma transformação decisiva: deixou de ser apenas um veículo de alta-costura para incorporar celebridades, cultura pop e tendências de rua, ampliando enormemente sua influência. Além da revista, Wintour é responsável por consolidar o Met Gala como o principal evento de moda do mundo.
Anna Wintour e Meryl Streep
Contudo, sua imagem pública também ficou marcada por outro aspecto: um estilo de liderança altamente exigente, reservado e direto – características que ajudaram a consolidar sua reputação como uma das figuras mais poderosas da mídia.
Na construção da personagem, porém, há outras camadas pouco discutidas. A atuação de Meryl Streep foi inspirada em dois nomes fora da moda:
Mike Nichols, cineasta norte-americano conhecido por seu humor refinado, seco e inteligente.
Clint Eastwood – o ator, cineasta, compositor e produtor é referência de autoridade “silenciosa” na indústria.
Getty ImagesMike Nichols e Meryl Streep
Essa combinação ajudou a transformar Miranda em algo maior do que uma pessoa real: um arquétipo de liderança moderna.
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Nigel Kipling: o olhar crítico e sofisticado
Nigel é construído a partir de diferentes figuras do universo editorial e criativo. Um dos nomes associados é William Norwich, jornalista com longa trajetória na Vogue, Town & Country e The New York Post. Conhecido por seu estilo irônico e observador, Norwich também é autor de livros e colunas que analisam comportamento e sociedade.
Courtesy of William NorwichWilliam Norwich
Outro nome importante é Simon Doonan. Nascido no Reino Unido, Doonan ficou famoso por seu trabalho como diretor criativo da Barney’s New York, onde revolucionou vitrines de lojas com conceitos ousados, irreverentes e muitas vezes provocativos. Além disso, construiu carreira como escritor e comentarista cultural.
Getty ImagesSimon Doonan com as atrizes de Sex & the City
Mas a figura mais emblemática associada a Nigel é André Leon Talley. Talley foi diretor criativo da Vogue norte-americana entre 1988 e 1995 e uma das vozes mais influentes da moda por décadas. Com quase dois metros de altura e um estilo marcante, ele se tornou uma figura icônica tanto dentro quanto fora da indústria.
Getty ImagesAndré Leon Talley era o “braço direito” de Anna Wintour
Andre Leon Talley
Mais do que estética, seu legado inclui a defesa da diversidade e o apoio a talentos negros em um setor historicamente excludente. Em seu livro de memórias The Chiffon Trenches, ele também revelou detalhes de sua relação com Anna Wintour e os bastidores da Vogue.
A soma dessas referências cria um perfil complexo: alguém que transita entre criatividade, crítica e lealdade institucional.
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Emily Charlton: ambição, pressão e formação de elite
Emily é talvez o retrato mais direto da cultura interna da Vogue. A principal inspiração, ao que tudo indica, é Leslie Fremar. Canadense radicada em Nova York, Fremar começou como assistente de Anna Wintour e foi responsável por contratar Lauren Weisberger. Ela mesma confirmou ter dito a frase que se tornaria icônica:
“Um milhão de garotas matariam por esse emprego”, citou Leslie.
Após deixar a Vogue, construiu uma carreira sólida como stylist, trabalhando com inúmeras celebridades.
Leslie Fremar
Outras referências para a construção da personagem incluem:
Plum Sykes
Britânica, formada em Oxford, Sykes construiu carreira na Vogue norte-americana como editora colaboradora. Também se tornou autora de romances como Bergdorf Blondes, que exploram com humor o universo da elite nova-iorquina.
Kate Young
Ex-assistente de Wintour, hoje é considerada uma das stylists mais influentes de Hollywood. Trabalhou com atrizes como Natalie Portman, Margot Robbie e Dakota Johnson, sendo responsável por alguns dos looks mais marcantes de premiações.
Plum Sykes e Anna Wintour
Stefanie Keenan/WWD via Getty ImagesKate Young
Essas três trajetórias mostram como a posição de assistente – apesar de intensa – funcionava como porta de entrada para carreiras extremamente bem-sucedidas.
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O que essas pessoas revelam sobre a história
Ao observar essas figuras em conjunto, fica claro que O Diabo Veste Prada não é apenas uma narrativa sobre moda. É um retrato de um sistema real, sustentado por pessoas que ocupam diferentes posições dentro de uma estrutura altamente competitiva.
De Anna Wintour, no topo do poder, a Lauren Weisberger, que transformou a experiência em história, passando por nomes como André Leon Talley, Leslie Fremar e Kate Young, o que emerge é um ecossistema completo – onde talento, ambição e pressão coexistem.
E talvez seja por isso que a história continua tão relevante: porque, no fim, ela nunca foi apenas sobre personagens – mas sobre pessoas reais que ajudaram a definir como o poder funciona dentro e fora da moda e do jornalismo.