
As canetas emagrecedoras e os medicamentos para o controle do diabetes tipo 2, que ganharam popularidade mundial nos últimos anos, possuem uma origem curiosa e selvagem: o veneno de um lagarto. O monstro-de-gila, que habita regiões desérticas entre os Estados Unidos e o México, foi o ponto de partida para o desenvolvimento de substâncias que mimetizam hormônios humanos e controlam a glicemia.
O animal, que mede cerca de meio metro e pesa pouco mais de 600 gramas, possui uma mordida mortal e um sistema digestivo extremamente lento. A descoberta fundamental para a medicina moderna foi identificar que o veneno desse réptil favorece a produção de uma enzima essencial para o controle do açúcar no sangue.
O funcionamento do hormônio GLP-1
No organismo humano, o hormônio chamado GLP-1 é produzido naturalmente pelo intestino logo após a alimentação. Sua função principal é auxiliar no transporte de nutrientes absorvidos para as células, além de estimular o pâncreas a produzir insulina. A insulina é o hormônio responsável por regular os níveis de açúcar no sangue, permitindo que as células utilizem a glicose como fonte de energia.
Entretanto, o GLP-1 produzido pelo corpo humano possui uma vida útil muito curta, permanecendo pouco tempo na corrente sanguínea. É neste ponto que a biologia do monstro-de-gila se torna relevante. A saliva do lagarto contém uma substância quase idêntica ao hormônio humano, porém muito mais resistente à degradação.
Essa estabilidade permite que o tratamento farmacológico dure até 24 horas no sangue do paciente, ou até mais, dependendo da evolução da molécula. A partir dessa descoberta, a indústria farmacêutica realizou modificações sucessivas nas moléculas para criar os medicamentos injetáveis hoje amplamente utilizados para perda de peso e controle metabólico.
Pesquisas brasileiras e a inspiração na natureza
No Instituto de Ciências Biomédicas da USP, o pesquisador José Donato estuda o controle do peso corporal há duas décadas. A equipe busca compreender detalhadamente como esses hormônios funcionam no cérebro e como a falta de certas substâncias pode levar à obesidade severa por meio do aumento descontrolado da fome.
José Donato ressalta que a indústria farmacêutica utiliza a natureza como um laboratório de inspiração constante. Animais e vegetais possuem compostos bioativos que são continuamente descobertos e refinados para o uso humano.
Essa não é a primeira vez que um animal peçonhento contribui para a saúde pública mundial. Um exemplo emblemático ocorrido no Brasil, na década de 60, foi a criação do Captopril. O medicamento, utilizado até hoje no tratamento da hipertensão em todo o mundo, foi desenvolvido a partir de estudos com o veneno da jararaca.
Atualmente, as pesquisas avançam para entender como essas novas classes de medicamentos baseados no veneno do lagarto interagem com os receptores cerebrais, abrindo portas para tratamentos ainda mais precisos contra doenças metabólicas crônicas.
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