- O BC atua simultaneamente como regulador e operador do sistema, definindo as regras e administrando a infraestrutura do PIX;
- O sistema teria vantagens por não funcionar como uma empresa privada tradicional, já que não busca obter lucro por meio da cobrança de taxas sobre as transações;
- Empresas americanas poderiam ser prejudicadas ao competir com uma infraestrutura pública de pagamentos.
Durante a apresentação das medidas contra o Brasil, representantes do governo Trump afirmaram que a intenção não é acabar com o sistema.
“Não estamos pedindo ao Brasil para se livrar do PICS ou de qualquer coisa que importe para o Brasil. Isso não é problema. O que não queremos é uma situação em que empresas americanas sejam forçadas a anunciar o PICS, ou sejam limitadas pelo PICS, e que elas e o PICS recebam tratamento especial simplesmente por serem de propriedade brasileira ou por serem um sistema de pagamento eletrônico”.
Existe concorrência desleal?
Para os especialistas ouvidos pelo g1, o PIX de fato provocou uma transformação profunda no mercado de pagamentos, mas isso não significa uma prática desleal.
A principal crítica americana está relacionada ao fato de o BC exercer o papel regulador e operador do sistema. Isso, porém, foi o principal fator para o sucesso.
- Ao criar padrões tecnológicos, estabelecer regras comuns e exigir a participação das instituições financeiras na infraestrutura, o BC conseguiu fazer com que praticamente todos os bancos e fintechs passassem a oferecer o serviço desde o lançamento.
Especialistas são incisivos: a existência de uma infraestrutura pública não significa uma concorrência desleal.
Segundo eles, o PIX não impediu a atuação de outros meios de pagamento e, desde seu lançamento, cartões de crédito, débito e outros serviços continuaram funcionando no país.
“O PIX não foi criado para concorrer ou substituir outros meios de pagamento, como o cartão de crédito. Desde o lançamento do sistema, as demais formas de pagamento, especialmente os cartões, continuaram crescendo”, afirma Ralf Germer, CEO da PagBrasil.
Germer defende ainda que empresas do setor tiveram tempo para se adaptar e criar soluções capazes de competir frente a frente com o sistema.
Já o economista e professor da ESPM, Jorge Ferreira dos Santos Filho, aponta que a pressão dos EUA está relacionada principalmente à mudança no modelo de negócios de empresas que tradicionalmente lucravam com tarifas cobradas em transações.
“O PIX é gratuito para pessoas físicas e tem custo baixo para empresas, representando forte concorrência para grandes operadoras de cartão de crédito americanas, como Visa e Mastercard”, afirma.
Especialistas destacam ainda que o avanço do sistema brasileiro também pressiona fintechs e empresas de tecnologia que também já possuem soluções próprias de pagamento.
A disputa além dos cartões
Embora a discussão sobre cartões seja o argumento oficial apresentado pelos EUA, um dos pontos mencionados pelos especialistas é o avanço do chamado PIX Internacional, projeto do BC para permitir pagamentos transfronteiriços por meio da integração com sistemas de outros países.
Hoje, o sistema já pode ser usado de forma limitada por brasileiros em alguns estabelecimentos no exterior. A expectativa é que sistemas de pagamento instantâneo de diferentes países possam ser conectados.
Nesse sentido, a possibilidade de uso do PIX Internacional como meio de pagamento entre países do Brics, por exemplo, pode ter incomodado os EUA por ameaçar a paridade do dólar nas negociações, comprometendo a hegemonia da moeda no sistema financeiro global.
- 🔎 O Brics é um grupo de países emergentes que inclui Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Egito, Arábia Saudita, Etiópia, Indonésia e Irã.
“Esse pode ser o ponto que mais incomoda o governo americano: a criação de uma moeda única do Brics e o possível uso do sistema PIX para reduzir a influência do dólar nas negociações entre esses países.”
Especialistas ressaltam, porém, que o PIX Internacional ainda está em desenvolvimento e que a relação com a disputa geopolítica é uma interpretação sobre possíveis impactos futuros, não uma justificativa oficialmente apresentada pelo governo americano.
Apesar das críticas, os EUA também contam com sistemas de pagamentos instantâneos, como o FedNow, criado pelo Federal Reserve, e o Zelle, desenvolvido por grandes bancos americanos.
Para especialistas, o ponto de diferença está na escala de uso. Nos EUA, a participação das instituições foi voluntária e não alcançou o mesmo nível de integração visto no Brasil.
Atenção internacional
O crescimento do PIX é considerado uma das maiores transformações recentes do sistema financeiro brasileiro. Lançado em novembro de 2020, o sistema alcançou escala nacional em poucos anos.
Segundo dados do Banco Central, ele já conta com cerca de:
- 170 milhões de usuários pessoas físicas, o equivalente a aproximadamente 80% da população brasileira;
- mais de 24 milhões de usuários pessoas jurídicas.
Em 2025, o sistema bateu recorde ao movimentar cerca de R$ 35,4 trilhões, distribuídos em quase 80 bilhões de transações. O volume corresponde a quase três vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.
Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo e fundador do RegLab, afirma que o sistema passou a ser observado por outros países justamente pela combinação de escala e eficiência.
“De uma forma ou de outra, o Pix virou um modelo, uma vitrine.”
Segundo ele, o sucesso do sistema mostra que governos podem criar infraestruturas digitais capazes de transformar mercados tradicionalmente dominados pela iniciativa privada.
Outros argumentos
Embora o sistema de pagamentos tenha ganhado destaque, ele aparece como apenas um dos argumentos usados pelos Estados Unidos para justificar o novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros.
Entre os argumentos estão as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) envolvendo plataformas digitais, críticas ao ambiente regulatório para empresas de tecnologia americanas, questionamentos sobre proteção à propriedade intelectual, alegações de corrupção, tarifas aplicadas pelo Brasil a determinados produtos importados e até acusações relacionadas ao desmatamento.
No caso das big techs, o governo americano cita medidas adotadas pela Justiça brasileira contra plataformas que descumpriram determinações judiciais.
O USTR também questiona regras e decisões que, na avaliação americana, poderiam afetar empresas de tecnologia dos Estados Unidos.
Já na área comercial, o governo Trump acusa o Brasil de conceder tratamento preferencial a alguns parceiros comerciais e critica políticas relacionadas ao mercado de etanol. O relatório ainda menciona preocupações envolvendo propriedade intelectual e o combate à corrupção.
O governo brasileiro rejeita as acusações e sustenta que as medidas adotadas seguem a legislação nacional e respeitam princípios de soberania. Após o anúncio do tarifaço, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o país responderá com base na Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada neste ano para permitir reação a barreiras comerciais impostas por outros países.