‘ONU paralela’: por que o Conselho da Paz de Trump está gerando temor entre lideranças mundiais

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enviou convites a lideranças de cerca de 60 países para a criação de um “Conselho da Paz”. O presidente Lula (PT) está entre os convidados para integrar a iniciativa. Há, no entanto, receio na comunidade internacional de que o grupo enfraqueça o papel da Organização das Nações Unidas (ONU).
▶️ O Conselho da Paz é uma estrutura criada por Trump para atuar na manutenção da paz e na reconstrução da Faixa de Gaza. A iniciativa também pode atuar em outros conflitos internacionais no futuro.
- De acordo com uma cópia do estatuto do conselho obtida pela agência Reuters, Trump terá mandato vitalício como presidente do grupo.
- Países que desejarem um assento permanente precisarão pagar US$ 1 bilhão (R$ 5,37 bilhões). Os recursos serão administrados por Trump.
- Argentina, Hungria e Marrocos já aceitaram o convite. O Brasil ainda está avaliando.
Segundo a Reuters, o envio das cartas gerou preocupação entre autoridades mundiais, principalmente na Europa. Diplomatas disseram que a medida também pode enfraquecer as Nações Unidas como um todo.
Um alto funcionário da ONU evitou comentou o plano de Trump, mas disse que a organização é a única instituição com capacidade moral e legal para reunir todas as nações, grandes ou pequenas.
“E se questionarmos isso… retrocedemos para tempos muito, muito sombrios”, disse Annalena Baerbock, presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, à Sky News.
Trump costuma criticar instituições multilaterais, principalmente ONU. O presidente norte-americano questiona a eficácia, o custo e a responsabilidade desses organismos e afirma que, muitas vezes, eles não servem aos interesses dos Estados Unidos.
Para Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), a estrutura proposta por Trump reúne uma série de falhas e concentra poder demais em uma única liderança, que seria a do próprio presidente dos Estados Unidos.
Ao exigir uma contribuição de US$ 1 bilhão por país interessado em um assento permanente e afirmar que administraria esses recursos, Trump levanta dúvidas sobre transparência e sobre o controle das decisões estratégicas, segundo o professor.
“O arranjo reflete uma abordagem personalista e unilateral, concentrando poder na figura de Trump, que teria influência decisiva e poder de veto sobre o funcionamento do órgão”, afirma. “Há um temor real de que o Conselho se torne uma espécie de ONU paralela, controlada pelos Estados Unidos.”
Ainda segundo Stuenkel, há questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, já que Trump nomeou o próprio genro, Jared Kushner, e o conselheiro Steve Witkoff para fazer parte da estrutura. Ambos têm interesses empresariais na região de Gaza.
G1




