E, como notaram os economistas ouvidos pelo g1, surgiu um tempero extra à incerteza na economia global, em especial nos Estados Unidos, após a vitória de Donald Trump nas eleições. Com promessas mais inflacionárias do novo presidente, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) pode ter mais dificuldade de baixar os juros por lá. (entenda abaixo)
“O ambiente externo permanece desafiador, em função, principalmente, da conjuntura econômica incerta nos Estados Unidos, o que suscita maiores dúvidas sobre os ritmos da desaceleração, da desinflação e, consequentemente, sobre a postura do Fed”, diz o comitê.
O Copom cita os seguintes aspectos como importantes para seu balanço de risco.
- (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado;
- (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais apertado [quando a atividade do país está muito próxima do que ela pode produzir, ainda sem gerar inflação pela demanda]; e
- (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada.
- (i) uma desaceleração da atividade econômica global mais acentuada do que a projetada; e
- (ii) os impactos do aperto monetário sobre a desinflação global se mostrarem mais fortes do que o esperado.
Sobre as contas públicas — parte que o BC não tem ingerência, mas não deixou de citar — o comitê diz que tem acompanhado “com atenção” como a dificuldade de o governo federal garantir que vai cumprir a meta de déficit zero impactam a política monetária e os ativos financeiros. (saiba mais também abaixo)
“A percepção dos agentes econômicos sobre o cenário fiscal tem afetado, de forma relevante, os preços de ativos e as expectativas dos agentes, especialmente o prêmio de risco e a taxa de câmbio”, diz o comunicado.
“O Comitê reafirma que uma política fiscal crível e comprometida com a sustentabilidade da dívida, com a apresentação e execução de medidas estruturais para o orçamento fiscal, contribuirá para a ancoragem das expectativas de inflação e para a redução dos prêmios de risco dos ativos financeiros, consequentemente impactando a política monetária.”
O Copom completa que o cenário segue marcado por “resiliência na atividade, pressões no mercado de trabalho, hiato do produto positivo, elevação das projeções de inflação e expectativas desancoradas, o que demanda uma política monetária mais contracionista”.
“Era importante o BC manter essa dependência dos dados por causa da grande incerteza do cenário com toda a questão relacionada à eleição dos Estados Unidos e a incerteza em torno do pacote fiscal”, avalia Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos.
“Nós temos visto os ativos brasileiros bem estressados, com bastante prêmio de risco [maior rentabilidade por conta do aumento de risco], e uma eventual percepção de leniência com a inflação por parte do BC poderia piorar ainda mais essa situação.”
Para Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, o comunicado do Copom e seu tom duro veio para consolidar a necessidade de um anúncio de corte de gastos pelo governo federal o quanto antes.
“A autoridade monetária foi bastante clara ao passar o recado: sem um programa de corte de gastos crível e de caráter estrutural, a política monetária deverá se manter dura”, diz a economista.
“Sem um bom pacote fiscal, não haverá ancoragem das expectativas e convergência da dívida, o que, em outras palavras, implica em uma política monetária ainda mais apertada.”
Por que teremos novas altas da Selic?
Segundo economistas consultados pelo g1, uma série de fatores tem influenciado a percepção do mercado de que o Copom precisará adotar uma postura mais dura na condução dos juros, subindo as taxas. Entre eles estão:
- A maior incerteza sobre as contas públicas do país;
- A atividade econômica aquecida e a consequente pressão inflacionária; e
- O cenário internacional, também mais incerto.
Incerteza sobre as contas públicas do país
De acordo com os especialistas, a dúvida sobre a capacidade do governo em cumprir com suas metas fiscais é um dos principais fatores avaliados pelo mercado nos últimos meses.
“O fiscal é uma estatística macroeconômica importante e que entra de forma indireta nas expectativas de inflação”, explica o economista do ASA Leonardo Costa.