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Controle dos EUA sobre petróleo venezuelano pode pressionar mercado e atingir o Brasil

ação militar dos EUA em solo venezuelano exigiu um novo desenho da política mundial, o que deve gerar repercussões tanto na geopolítica quanto na economia internacional, com impactos diretos no Brasil.

Ao R7, especialistas afirmam que o controle do petróleo venezuelano pelos norte-americanos funcionou, majoritariamente, para incentivar o crescimento da indústria e até mesmo pressionar aliados, restringindo a oferta do óleo.

Em 3 de janeiro, os Estados Unidos invadiram a Venezuela e sequestraram o então presidente, ditador Nicolas Maduro, sob justificativa de combate ao narcotráfico. Além do ataque, o presidente Donald Trump ordenou o bloqueio ao petróleo venezuelano.
Para Ludmila Culpi, professora de Relações Internacionais da PUCPR e de Economia da FAE, o controle sobre o petróleo da Venezuela dá poder aos americanos para definirem os preços na região, o que pode inundar o mercado para baixar preços de modo artificial.

“Isso provocaria prejuízos enormes à Petrobras (que precisa de um preço de barril relativamente alto para financiar a exploração do pré-sal e a transição energética). Outra manobra que pode ser adotada em termos econômicos seria a de restringir a oferta de petróleo, para pressionar aliados“, avalia.

Em um cenário em que uma potência dominante passe a controlar a oferta de petróleo da América do Sul, o Brasil corre o risco de perder sua autonomia energética. Com isso, teria menos controle sobre os preços e ficaria mais dependente das variações do mercado internacional, influenciadas pelos Estados Unidos.

O coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR, João Alfredo Lopes Nyegray, pontua que, no caso do Brasil — grande exportador de petróleo —, o risco de curto prazo é a volatilidade. Isso gera pressão sobre as receitas e investimentos do setor, caso os preços caiam por ações coordenadas, além de criar um risco de contágio regulatório.

Preço da gasolina no Brasil

Assim como o cenário global, o impacto no preço da gasolina é complexo, avaliam especialistas. Em uma situação mais provável e já observada, o aumento nos custos de seguro e frete, causado pela tensão no Caribe, anularia o efeito positivo da queda do preço do Brent (referência para precificação de petróleo bruto no mundo) para os combustíveis em território brasileiro.

“Pode-se dizer que a alta dos combustíveis é o cenário mais provável a curto e médio prazo no Brasil. Embora previsões sejam difíceis em cenários de conflito, devido ao alto grau de incerteza, a lógica econômica é implacável: mercados reagem muito à incerteza. A simples possibilidade de um conflito armado ou de um bloqueio naval na Venezuela gera um “prêmio de risco” elevado sobre o barril de petróleo tipo Brent”, explica Culpi.

Como o Brasil ainda adota a referência dos preços internacionais do petróleo, mesmo com alguma flexibilização recente, qualquer alta do barril no exterior acaba refletindo diretamente no preço dos combustíveis no país. A Petrobras, por sua vez, atua sob regras rígidas de mercado e não possui respaldo legal para intervir diretamente nos preços.

Esse cenário pode provocar inflação interna, especialmente a chamada inflação de custos, que ocorre quando despesas como transporte e logística aumentam e impactam toda a cadeia produtiva. Além disso, eventuais problemas logísticos no Caribe reduzem o fluxo de navios e elevam os custos de seguro e frete, que acabam sendo repassados ao consumidor brasileiro tanto nos combustíveis quanto nos produtos importados.

Vale lembrar que a Venezuela tem papel relevante dentro da OPEP, e um conflito no país afeta a organização como um todo, elevando os riscos geopolíticos e a instabilidade dos preços do petróleo. Além disso, um novo governo venezuelano pode optar por descumprir as cotas da OPEP para ampliar a produção e as exportações, buscando recursos para a reconstrução do país.

Diante deste cenário, Nyegray acredita ser possível um aumento no preço da gasolina no Brasil, mas ressalta que o reajuste não será automático. O impacto dependerá da combinação entre o preço internacional do óleo, o câmbio e a política comercial doméstica.

Imprevisibilidade

A invasão norte-americana à Venezuela marca uma nova conjuntura geopolítica, com sinais de insegurança jurídica e política para todo o Sul Global. Para Nyegray, a mudança vai além das fronteiras venezuelanas — ela terá reflexos em toda a dinâmica dos EUA com as demais nações.

“A pressão aberta sobre a OTAN e a União Europeia em torno da Groenlândia, somada a ameaças recorrentes a parceiros históricos, sinaliza que Washington passou a tratar alianças como ativos negociáveis, não como compromissos estruturais. A manifestação pública de desconfiança do primeiro-ministro canadense em Davos é emblemática: quando até aliados centrais expressam receio quanto à previsibilidade americana, o problema deixa de ser pontual e passa a ser sistêmico”, analisa o especialista.

Ele explica que a invasão ao território da Venezuela funciona como demonstração de unilateralismo explícito, uso direto da força e disposição para impor fatos consumados — inclusive sobre soberania, recursos naturais e arranjos políticos internos.

“O efeito imediato é uma erosão de confiança que empurra aliados a diversificar dependências (segurança, energia, cadeias produtivas) e a reduzir exposição a decisões americanas discricionárias. No médio prazo, isso tende a fragmentar o campo ocidental, enfraquecer a coordenação transatlântica e abrir espaço para que outros polos, especialmente China e Rússia, explorem a percepção de que os EUA passaram de fiador da ordem para ator imprevisível que exige alinhamento sob pressão”, conclui João Alfredo Nyegray.

R7

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