A primeira de todas: quem foi Maria Quitéria, baiana pioneira do Exército brasileiro há 200 anos

Com cabelo raspado e roupas emprestadas do cunhado, Maria Quitéria se transformou no soldado Medeiros e se alistou no Exército Brasileiro em 1822. Mesmo após ter tido a identidade revelada, a baiana permaneceu na tropa e, por dois séculos, foi a única soldado mulher de que havia registro na história do Brasil.
Na última semana, ela ganhou a companhia de outras 1.010 mulheres que se formaram como soldados do Exército e incorporaram às fileiras em março em todo o país. O grupo pôde ingressar oficialmente nas Forças Armadas após o alistamento voluntário feminino ser permitido, pela primeira vez, em janeiro de 2025.
Este ano trouxe ainda outro marco à instituição: a primeira mulher a ser indicada como general, o cargo mais alto da Força Terrestre. Antes de ser nomeada, o nome da coronel médica Cláudia Lima Gusmão Cacho será submetido à aprovação do Presidente da República.
♀️🪖 Neste Dia da Mulher, o g1 relembra Maria Quitéria e analisa como a trajetória de ineditismo dela e de outras mulheres ao longo da história do Exército pavimentou o caminho até a incorporação das soldados em 2026.
Apesar de ter sido a grande precursora das mudanças que viriam a acontecer nas Forças Armadas ao longo de 200 anos, Maria Quitéria morreu pobre, foi enterrada como indigente e teve a sua história silenciada por anos. (leia abaixo)
Subvertendo a ordem
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Maria Quitéria – especial 2 de Julho — Foto: Redes sociais
Maria Quitéria nasceu e cresceu em uma comunidade rural em Feira de Santana, atualmente a segunda maior cidade da Bahia. Com a morte da mãe ainda na infância, ela passou a exercer papéis que não eram associados às mulheres do século XIX, como caçar, pescar e manusear armas.
Com ajuda da irmã, “o soldado Medeiros” – personagem que criou para burlar o impedimento às mulheres na tropa – se alistou no Regimento de Artilharia da Vila de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, para lutar contra as tropas portuguesas na guerras pela independência do Brasil, em 1822.
Maria Quitéria nasceu e cresceu em uma comunidade rural em Feira de Santana, atualmente a segunda maior cidade da Bahia. Com a morte da mãe ainda na infância, ela passou a exercer papéis que não eram associados às mulheres do século XIX, como caçar, pescar e manusear armas.
Com ajuda da irmã, “o soldado Medeiros” – personagem que criou para burlar o impedimento às mulheres na tropa – se alistou no Regimento de Artilharia da Vila de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, para lutar contra as tropas portuguesas na guerras pela independência do Brasil, em 1822.
A baiana se destacou em três batalhas: em Pirajá, na defesa de Ilha da Maré e na de Piatã, todas ambientadas em Salvador. Na batalha de Piatã, Maria Quitéria entrou em uma trincheira, rendeu os soldados portugueses e os levou, sozinha, para o acampamento.
O feito a rendeu uma condecoração e o reconhecimento pelo então imperador Dom Pedro I, que a entregou a insígnia de “Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro” – uma honraria em reconhecimento ao serviço dos súditos que contribuíram com a nação e demonstrar o alto grau de estima e consideração do monarca.
Para Sílvia Duarte tenente-coronel do Exército, doutora em Educação, Arte e História da Cultura e estudiosa do tema mulheres nas Forças Armadas, há um paradoxo em como Maria Quitéria foi recompensada, quando comparada a figuras masculinas que também lutaram pela Independência do Brasil.
A morte de Maria Quitéria sustenta o paradoxo apontado pela tenente coronel: aos 61 anos, ela foi enterrada em uma cova rasa, como indigente, em um cemitério que era vizinho à Igreja de Santana, na capital baiana.
Em Salvador, a primeira estátua da heroína só foi inaugurada em 1953, mais de 160 anos depois de sua morte. O reconhecimento pelo Exército aconteceu em 1996, quando ela passou a ser Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro (QCO) – a escola que forma Oficiais para o Exército, em Salvador, abriu as portas ao serviço militar feminino a partir de 1992 e essas mulheres foram incorporadas aos quartéis no ano seguinte, 1993.
Além disso, nenhum quartel do país leva o nome de Maria Quitéria – o que é comum entre seus ‘pares’ homens. No Rio de Janeiro, fortes homenageiam Duque de Caxias e General Osório, por exemplo. Em Salvador, o 19º Batalhão de Caçadores é chamado de Batalhão Pirajá em homenagem à Batalha de Pirajá, episódio marcante na luta pela Independência.
Para a historiadora Márcia Suely, o apagamento da memória da heroína está associado à subversão que ela provocou na sociedade da época.
Apesar disso, na Bahia há uma tentativa de resgate dessa memória, com estátua e honrarias que levam o nome dela. Veja abaixo:
- 🚥 Avenida e monumento em Feira de Santana (1950)
- 🗿 Estátua no bairro da Liberdade, em Salvador (1953)
- 🏅 Comenda Maria Quitéria, criada em 1979 pela Câmara Municipal de Feira de Santana
É a mais alta honraria concedida pela Casa para as mulheres que se destacam por sua atuação na sociedade. - 🏅 Comenda Maria Quitéria, criada em 1981 pela Câmara Municipal de Salvador
Honraria concedida a mulheres com trajetória de destaque em áreas como social, cultural, educacional, política ou econômica.
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Monumento de Maria Quitéria está Instalado no cruzamento entre as avenidas Maria Quitéria e Getúlio Vargas — Foto: Jorge Magalhães
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