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Zé Carlos, 100 anos

Quando conheci Seu Zé Carlos, ele tinha 61 anos. E eu, 28. Já era o homem do Café São Braz, que transformara o pequeno negócio de torrefação do pai num grande negócio. Estava entrando no mundo da televisão, e foi onde nos encontramos.

Nos primeiros anos da TV Cabo Branco, fiz parte de um grupo que, cotidianamente, conversava com Seu Zé Carlos. Desde os contatos iniciais, tive plena consciência do quanto eram importantes aquelas conversas. Do aprendizado que elas transmitiam.

Ele era um professor compartilhando sua imensa experiência. Campina Grande, a Paraíba, o Nordeste, o Brasil, o desenvolvimento, a economia, a política – tudo isso estava na sua agenda. E, naturalmente, o seu negócio, razão da própria existência.

Nosso último encontro foi em 2019. Encarregado de entrevistá-lo para um projeto da Globo, fui vê-lo na São Braz. Falamos da gravação, que seria feita no dia seguinte, mas Seu Zé Carlos acabou resgatando pessoas e fatos do início da TV Cabo Branco.

Não imaginei que não voltaria a vê-lo nem que, às vésperas dos 95 anos e em plena atividade, seria levado pela covid. Seu Zé Carlos deixou legado sólido e muitas lições.

Selecionei trechos da entrevista que fiz com ele para o Memória Globo e posto aqui, nessa terça-feira, 16 de junho de 2026, o dia em que faz 100 anos do seu nascimento.

CAMPINA GRANDE

Olha, sou José Carlos da Silva Júnior, empresário originário de Campina Grande, cidade onde nasci. Sempre mantive um espírito de unidade, participando de todos os eventos, de todas as entidades de classe, e, toda vida, gostei muito da minha cidade e a representei em todas as vezes que eu tive a oportunidade.

Campina Grande era uma cidade reivindicatória em um estado pobre como a Paraíba. Se não fora o esforço que Campina Grande fez no sentido de se tornar uma cidade importante, isso não teria acontecido.

JORNAL DA PARAÍBA

Nós conseguimos reunir sete empresários e constituímos o jornal em Campina Grande, que era o Jornal da Paraíba. Esse jornal promovia a cidade e era instrumento de reivindicação, no sentido de fazer com que Campina Grande pudesse se tornar uma cidade grande. E isso, de fato, aconteceu. O mérito não é somente meu, porque nós tínhamos sete companheiros que participavam daquele empreendimento.

Todavia, eu fiquei durante um período muito longo dirigindo o jornal, como uma pessoa que representava o sentimento campinense. O jornal lutava muito pelo crescimento de Campina Grande.

VICE-GOVERNADOR

Wilson Braga lembrou o meu nome e resolveu me convocar, me convidar para ser vice-governador. Eu nunca tive interesse de desenvolver atividade política. Sempre fui uma pessoa muito voltada para a atividade empresarial. Todavia, me foi sugerido que eu aceitasse, que era uma oportunidade para ter o gabinete mais próximo do governo.

Aceitei a participação, mesmo sem ter nenhuma experiência na atividade política, nem desejar absolutamente usar a vice-governança como instrumento para fazer política da minha vida. Fizemos um governo voltado para uma atividade que Wilson Braga sempre viu com muita atenção, que era o problema da escassez da água no Nordeste.

Ele visava dois problemas, o atendimento do abastecimento d’água na Paraíba e uma atividade social, talvez pelo espírito que tinha, porque era amigo de todo mundo e foi, de fato, um governador muito popular.

Como vice-governador, tive um desempenho que considero de razoável para bom. Wilson Braga tinha uma confiança muito grande em mim, e eu não tinha o interesse de ocupar o governo com o objetivo de substituí-lo no relacionamento que ele tinha com a comunidade.

TELEVISÃO

Milton Cabral e Wilson Braga resolveram cuidar da televisão aqui em João Pessoa – a TV Cabo Branco – e me entregaram a televisão de Campina Grande – a TV Paraíba – para que eu cuidasse dela. Eu achei que foi uma decisão muito boa, porque eles não tinham experiência na atividade empresarial e, se eles ficassem interferindo muito no sistema causava, vamos dizer, os problemas que aconteceram.

A nossa emissora de televisão – a TV Paraíba – foi uma emissora instalada aqui na região e considerada a emissora padrão pequena do Sistema Globo. Quem montou o nosso sistema de televisão foi um técnico da Globo que tinha saído há pouco tempo e tinha constituído uma empresa no Rio de Janeiro de montagem de empresas de televisão. Por essa razão, eles fizeram da TV Paraíba a emissora padrão pequena do Sistema Globo. Ficamos com a emissora de televisão de Campina Grande, que era um primor. E, em João Pessoa, Wilson Braga foi cuidar do sistema de televisão. Quer dizer, um político cuidando de um sistema de comunicação, naturalmente surgem interferências que não são adequadas.

Até que ele desistiu do sistema de televisão e resolveu oferecer a terceiros. Havia outras empresas que tinham interesse em adquirir o sistema, mas como eu era sócio e tinha participação de um terço no sistema de televisão, eu tinha preferência. Na hora da preferência, eu a exerci. E fiquei com o Sistema Globo integralmente, não só em Campina Grande, como em João Pessoa.

COMPROMISSO

A partir da hora que Wilson Braga resolveu desistir, então nós ocupamos o espaço, e chamei Arlindo Almeida, um executivo que conhecia o sistema de televisão muito bem, pela montagem do nosso, pelo relacionamento que tinha com a Globo e pela satisfação que a Globo também tinha, que estava num momento de expansão, que dava uma contribuição muito expressiva para cada novo concessionário que tinha o sistema de transmissão.

Foi muito interessante esse trabalho, e eu considero que é bom ter o sistema de comunicação e usá-lo da forma como nós sempre usamos, com o objetivo de transmitir os fatos que acontecem com veracidade, de modo que não desse ao sistema a imagem de uma empresa que transmite fatos que não são verdadeiros.

Pelo entusiasmo que Campina Grande costuma ter com os novos empreendimentos, foi uma satisfação para a cidade saber que o Sistema Globo de televisão era dirigido por um empresário campinense. Naquela época, nós já dirigíamos um jornal. Mais tarde, recebemos também esse apoio aqui em João Pessoa. Foi uma oportunidade que a Paraíba conseguiu de ter um sistema de televisão que era um dos mais bem organizados daqui da região Nordeste.

O SENADO

Eu fui insistentemente convidado por alguns amigos a continuar na atividade política. Eu achava que estava muito ocupado na minha atividade empresarial e deixei que essa atividade política fosse mais para aqueles que já vinham fazendo política desde antes. Humberto Lucena insistia muito para que eu ficasse no grupo dele. Eu fiquei com Ronaldo Cunha Lima pela amizade que nós tínhamos já de algum tempo. Fui suplente e assumi por um período durante o tratamento de saúde de Ronaldo.

Foi uma uma oportunidade muito interessante. Lá, você pode ajudar a decidir o destino do seu país e, se houver boa vontade de sua parte, você pode fazer, de fato, um excelente trabalho. A oportunidade que eu tive foi apenas de conhecer e não de interferir no sentido de tomar decisões, porque isso é uma decisão máxima partidária. Mas é uma satisfação muito grande a pessoa passar um período no Senado. Era um aperfeiçoamento da minha atividade e uma honra muito grande estar naquela Casa da qual somente 81 pessoas participam.

ABIC

Eu sempre fui uma pessoa voltada para as associações de classe. Fui membro da Federação das Indústrias do Estado da Paraíba desde sua fundação. Fui diretor da Associação Comercial e participava de algumas associações de classe que existiam em Campina Grande. Mas existe um grupo no Rio de Janeiro que resolveu fazer uma renovação numa instituição, que era a Associação Brasileira da Indústria de Café. A qualidade do café no Brasil naquela época não era uma qualidade adequada, e o consumo efetivamente era baixo.

Foram instituídos naquela associação instrumentos que permitiram que nós saíssemos de um consumo de sete a oito bilhões de sacas de café, em 1989, para um consumo, hoje, de 22 bilhões de sacas. A contribuição da ABIC foi expressiva, no sentido de melhorar a qualidade do produto.

O Brasil tem mais de 210 milhões de habitantes, e os Estados Unidos, que é o maior consumidor do mundo, tem acima de 300 milhões. E nós temos hoje um consumo de café semelhante ao consumo de café que se tem nos Estados Unidos. Eu acho que isso foi uma contribuição muito grande que a ABIC deu, e eu tive a oportunidade de dirigir essa entidade com muita satisfação e prazer durante dois mandatos.

Tenho amigos que falam que o período áureo da Associação Brasileira da Indústria de Café foi o período do senador presidente, que era José Carlos. Mas isso eu fiz com muito prazer. Hoje, a entidade é muito respeitada no país pelo trabalho que ela fez pela melhoria da qualidade e o aumento do consumo.

Imagem ilustrativa da imagem Zé Carlos, 100 anos

Silvio Osias

jornaldaparaiba.com.br

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