A anulação das condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no âmbito da Lava-Jato, colocando-o de volta ao jogo político, azedou, de vez, o clima no mercado. Em um dia já negativo para os ativos brasileiros, a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), pegou os investidores de surpresa e agravou a busca por proteção diante do risco de polarização política e doses adicionais de medidas populistas do governo de Jair Bolsonaro.

O Ibovespa acelerou as perdas e fechou em queda de 3,98%, aos 110.612 pontos, enquanto o dólar subiu 1,70%, aos R$ 5,7788. A espiral negativa se intensificou no “after market” diante de ressurgimento de preocupações sobre o rumo da dívida pública após declarações de Bolsonaro de que pode haver mudanças na PEC Emergencial. O contrato futuro do Ibovespa recuou 5,42%, aos 109.150 pontos, e o do dólar avançou 3,26%, aos R$ 5,8820, em um claro sinal da pressão que está por vir hoje.

O que assustou o mercado foi a decisão de Fachin de anular todas as decisões contra o ex-presidente julgadas em Curitiba. Com isso, o petista recobra seus direitos políticos e poderia disputar a eleição presidencial de 2022. Nesse cenário, o grande risco temido pelo mercado é o de polarização política, o que diminuiria o espaço de uma candidatura de centro e poderia levar o governo de Bolsonaro a uma guinada populista, enfraquecendo qualquer iniciativa de ajuste fiscal.

“Para o mercado essa notícia pode trazer mais dificuldade para a agenda de reformas, podemos ter uma guinada política na condução da política econômica do governo”, diz Vladimir Vale, estrategista-chefe do Crédit Agricole no Brasil. Ainda segundo ele, há uma percepção de que Lula se “radicalizou” nos últimos anos. “A visão é de que o Lula mudou em relação aos seus outros mandatos, quando o mercado podia conviver com ele.”

Além disso, o estrategista afirma que, da perspectiva eleitoral, a volta de Lula ao páreo diminui as possibilidades de uma alternativa centrista, embora ainda seja “muito cedo para falar qualquer coisa mais concreta sobre o que representa para as eleições e para o sistema político”.

Para Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central, a decisão monocrática de Fachin gera uma “insegurança gigante no país” e o tombo do mercado ontem mostra o tamanho da surpresa. O gestor afirma que não é possível dizer se a desvalorização dos ativos foi exagerada, mas ele acredita que a medida ainda pode ser revertida e que a disputa eleitoral ainda está longe. “Estamos sob a primeira reação e ainda temos de ver o que vai acontecer para frente. É natural o mercado tomar um susto desse com uma decisão monocrática dessa”, diz.

Após a decisão de Fachin, Bolsonaro também demonstrou ter pressa em aprovar a PEC Emergencial na Câmara e sinalizou que a proposta pode passar por mudanças. Sem entrar em detalhes, o presidente disse que há risco de o texto não ser aprovado por causa de três artigos e disse que eles devem ser suprimidos. “A PEC emergencial ideal é aquela que será aprovada”, resumiu. O risco de alterações no texto fez ressurgir a preocupação com uma nova desidratação do lado fiscal e até um fatiamento da proposta.

Todo esse contexto levou os juros futuros a ampliarem ainda mais a alta na sessão estendida. A taxa do contrato do Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 escalou de 7,64% no fechamento anterior para 8,01%.

O susto com a questão política chega em um momento que o mercado brasileiro já vinha lidando com o movimento de venda de ações por estrangeiros e a desconfiança com a independência das estatais, além da piora da pandemia e a má gestão da crise pelo governo. Os investidores estrangeiros retiraram R$ 3,558 bilhões da bolsa em quatro sessões até o último dia 4, de acordo com dados mais recentes divulgados pela B3.

Para Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, a decisão de Fachin pode retirar o foco da agenda de reformas. “No nosso cenário político, sempre tem motivo para não engrenar medidas econômicas, e parece que, com essa notícia sobre o Lula, temos mais uma lombada nessa trajetória”, afirma

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