O festival de mentiras promovido pelo general de divisão Eduardo Pazuello não denigre nem ridiculariza o Senado Federal. Senadores possuem mandato popular, detêm poder constituinte originário, não poder derivado. Os militares não são um poder republicano, são uma instituição. Coisas diferentes, portanto. Se o objetivo do ex-ministro da Saúde, ao mentir deslavadamente, é o de tornar menor o Senado, além de proteger a si próprio e o capitão ao qual é subserviente, tal intuito foi tão ineficaz como o é a cloroquina para o tratamento da Covid-19.

Ou o Alto Comando das Forças Armadas vem a público e diz claramente que nada tem a ver com as inverdades e blefes de Pazuello, ou ela é que sairá apequenada dessa história. Se o general mente, e tudo fica bem entre os fardados, quanto então não poderá mentir um capitão?

A Constituição Brasileira, à qual os militares têm de obedecer cegamente, determina que aos investigados é legal e legítimo o ato de mentir para não haver produção de provas contra eles próprios. Como contrapeso na persecução penal, a Constituição estabelece também que testemunhas são obrigadas a falar a verdade – e, se mentirem, serão presas e processadas. Esse sistema é um dos fundamentos do devido processo legal – devido processo legal, aliás, que foi atirado no lixo durante a ditadura militar no País.

 

 

Espera-se, agora, que os comandantes das Três Armas não deixem a instituição passar novamente pelo desgastante e ilegítimo túnel obscurantista da ilegalidade a partir de mentiras de um general que só demonstrou incompetência, como ministro da Saúde, no combate à pandemia — e, com certeza, para lembrar dois generais cumpridores das leis, também é isso que Orlando Geisel e Leônidas Pires Gonçalves esperariam se estivessem vivos (o primeiro faleceu em 1979, o segundo, em 2015).

Pazuello se escondeu embaixo da cama quando soube que seria inquerido, apareceu, gaguejou, mentiu. Pode-se até dizer, em relação a alguns de seus inquisidores, que um escrivão de polícia sabe perguntar e formular questões de forma mais objetiva. Mas nada disso dá ao sr. Pazuello, integrante do Exército, o direito de debochar e zombar de um poder republicano.

Pazuello, honre a sua farda e suas três estrelas de general de divisão. Três milhões de acessos, em menos de um mês, compõem audiência da TV Senado, no YouTube, com a CPI. Não exponha, com mentiras, as Forças Armadas à execração pública. Honre a sua farda!

Antonio Carlos Prado

 

Fonte: istoe.com.br

 

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