A mobilização de moradores e da sociedade civil está fazendo a diferença para salvar vidas em favelas do Rio.

“Foi um morador ajudando o outro da forma possível”, conta Jeane Santo.

Com seis filhos e nove netos, a faxineira Jeane Santos da Silva ficou sem emprego no início de 2020. E conta que a família dela teria passado necessidade não fosse a ajuda que recebeu.

“Vinha o arroz, o feijão, o ovo, uma linguiça, uma banana, água, sabão, tudo. Tudo que você possa imaginar que a gente na comunidade necessitava, eles trouxeram para as nossas mãos, para as nossas casas, para dentro dos nossos armários”, afirma.

A família mora na Baixa do Sapateiro, uma das 16 comunidades do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. Jeane ganhou suporte emocional e informação fundamental para lidar com a Covid-19.

“’Lava a mão’, ‘ó, você está na rua sem máscara’, ‘por que essa aglomeração?’. E eles estavam ali sempre, até dando meio que uma bronquinha. Porque eles também forneceram isso: máscara, álcool para que a gente pudesse se proteger”, explica.

No fim de março, muitos moradores perceberam que as autoridades não seriam capazes de garantir a assistência necessária para o enfrentamento da pandemia dentro das comunidades. Diante do cenário de incerteza, iniciaram uma grande mobilização. Aos poucos, formaram uma rede de solidariedade que já beneficiou mais de 50 mil pessoas no Complexo da Maré.

Doações permitiram a distribuição de milhares de cestas básicas. Também desempregado, o cozinheiro Eduardo da Silva acabou levando alimentos e produtos de higiene para quem mais precisava.

“Várias famílias não tinham de onde tirar mais. Então, quando a gente chegava, a maioria era de alegria, choro, entendeu? Foi muito gratificante”, conta.

Voluntários se colocaram à disposição. Junto com a companhia de limpeza urbana, desinfectaram 900 ruas. Costureiras fabricaram 200 mil máscaras. Só a Ana faz 400 por semana.

“A minha sorte é que eu estou aqui, fazendo essas máscaras. Eu estou fabricando e elas vão e distribuem, eu sinto que eu estou ajudando em alguma coisa”, diz a costureira Ana.

Quem organizou essa corrente foi a ONG Redes da Maré, em parceria com empresas e outras instituições; 40 mil refeições foram preparadas e entregues para pessoas em situação de rua. Médicos e outros profissionais prestaram serviços gratuitos de teleatendimento em cabines, e unidades de saúde receberam equipamentos de proteção individual.

“Se nós tivemos 90 mortes aqui, elas seriam muito mais se a gente não tivesse criado uma rede de pessoas e de assistência de instituições da área de saúde para prover assistência para um conjunto de pessoas que a gente ajudou”, avalia Eliana Sousa Silva, diretora fundadora da Redes da Maré.

O que me marcou mais foi saber que, nesse mundo que nós vivemos, de divisões de pessoas, raças, condições de vida, teve alguém que lembrou da gente. O que me marcou foi esse amor que eles mostraram pela nossa comunidade. Essa preocupação de não deixar nossa vida no escuro. Eles deram, para resumir, uma luz no fim do túnel”, conta Jeane.

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