Milton Neves completa 70 anos de idade nesta sexta-feira (6). É o primeiro sem sua mulher Lenice, com quem ficou casado por 42 anos e morreu vítima de um câncer no pâncreas em agosto do ano passado. Ao NaTelinha, Milton relembra sua trajetória desde que saiu de Muzambinho, interior de Minas Gerais, até chegar ao auge. “Deus exagerou comigo. Foi uma zebra muito grande”, diz o jornalista, cujo sonho era apenas subir ao altar com sua então namorada, ter um apartamento e um Fusca.

Nem só de programas esportivos viveu Milton Neves. Além de ter comandado clássicos como o Super Técnico e Debate Bola, fez história também como apresentador de game-show, como quando apresentou o Roleta Russa, na Record. Na época, chegou a emplacar vitórias contra o Show do Milhão, que era apresentado por Silvio Santos, às quintas-feiras. “Tenho essa glória, o Silvio Santos tirou o programa dele do ar. O programa que ele apresentava, porque a gente ganhava dele”, orgulha-se, que narra ao longo da entrevista a única vez que teve um encontro com o Homem do Baú.

Quando o assunto é política, conta que vai se candidatar para presidente da República em 2022 ao lado de José Luiz Datena. “Brinco com ele que vamos ser candidatos à presidência da República. Combinei com o Datena, vamos os dois pro segundo turno. Aí não tem Lula… Não tem Bolsonaro… É eu e Datena, vamos tirar no par ou ímpar quem vai ser o presidente. Se eu ganhar, tiro o Palácio do Planalto e vou levar pra Muzambinho e vou governar de lá.”

Realizado profissionalmente e financeiramente, conta o que lhe motiva e o que lhe dá prazer. “Meu prazer é estar no 67º andar do apartamento em Nova Iorque, ou lá em Upper East Side no 41º andar, e ver a neve caindo. Meu prazer é estar tomando vinho”, admite.

Milton Neves 70: Apresentador relembra decepções, briga com Kajuru e declara voto em Datena
Milton Neves 70: Apresentador relembra decepções, briga com Kajuru e declara voto em Datena

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

NaTelinha – Completando 70 anos, você costuma dizer que não precisa ou almeja mais nada profissionalmente. Desde quando você tem essa sensação, de ter chegado no topo ou com essa sensação que já conquistou tudo?

Eu não comecei do zero. Eu comecei do menos mil. Eu já perdi o que eu não queria perder, que era minha mulher. E agora vai fazer um ano, entendeu? Deus exagerou comigo, que me deu em todos os aspectos, foi uma zebra muito grande. Me deu uma voz boa, conhecimento e isso. O casamento da publicidade com o jornalismo. Meu sonho era casar com a Lenice, ter um apartamento em Muzambinho, um fusca e mais nada. Nunca imaginei ter 1%. Não interessa se sou respeitado e conhecido. 1% ou 10%, mas não esperava, não imaginava que aconteceria isso na minha vida. Em aspectos profissionais, jornalísticos, nem meio por cento.

Falo isso pros meus filhos, o que aconteceu comigo foi improvável. É isso. Se amanhã eu parar, a frase é boa, modéstia à parte: meu último estádio é o Morumbi. Meu último estádio é o João Jorge Saad. Vou terminar lá onde sonhei começar. Meu sonho desde moleque em Muzambinho era trabalhar na Rádio Bandeirantes.

Antes de começar a namorar minha mulher… Meu sogro tinha um bar, com 16, 17 anos, cheguei lá pra comprar um quibe. Não dava pra comprar dois. Era um quibe ou um pastel. Ele estava ouvindo O Poder da Mensagem com Hélio Ribeiro. Eu falava que ia trabalhar na Bandeirantes e ele ‘quá quá quá’. Não foi por maldade, mas era uma coisa inatingível. Confesso a você, quando vou nos sanitários da Rádio Bandeirantes, eu lembro dele, cara. Nunca vou esquecer isso.

NaTelinha – Você disse que começou do menos menos mil…

Eu fui pra Curitiba em 71, passei fome e frio lá. Em 1971. Dormia num sofá, um frio danado. Eram 2h, 3h ou 4h, duas cobertinhas por dia, e quando subia a canela, era como se encostasse num pedaço de gelo.

NaTelinha – As conquistas que você teve tiveram um peso maior, então.

Minha mãe e minha tia foram maravilhosas. Minha tia ganhava 1 mil e poucos reais e cuidava de mim, da minha mãe, e do meu irmão. E eu aprendi que a vida lá fora era difícil. E fiquei menos de um ano lá. Voltei pra Muzambinho e não tinha pra onde ir.

NaTelinha – Você também já disse que seu melhor contrato foi na época do Cidade Alerta. Como foi essa sua passagem pelo programa? Como é que você foi parar lá?

A minha passagem pela Record foi extraordinária, entendeu? Cheguei num momento lá… Fazia o Debate Bola na hora do almoço e Terceiro Tempo domingo, fazia o Roleta Russa na quinta-feira. Entre aspas, eu era o ‘dono da Record’. E fazia o Cidade Alerta, o Datena saiu pra Band ou RedeTV!. E de repente, o Callegari [Luciano], grande Callegari. Sou muito amigo do filho dele, era o diretor artístico nosso. Ele me colocou no Domingo Espetacular, cujo nome era Impacto. Falei: ‘Callegari, tô com quatro programas, pelo amor de Deus, se você me der mais um morro’. Como vou fazer Impacto e entrar no Terceiro Tempo? Foi isso que aconteceu. E a Record, só deu eu lá.

Milton Neves 70: Apresentador relembra decepções, briga com Kajuru e declara voto em Datena

NaTelinha – O convite pro Cidade Alerta como foi?

O Datena, que tá com grande audiência na Band, ele tinha umas audiências absurdas, ainda mais quando chovia. O Datena é o rei da chuva. Quando chovia dava 300. E ficou aquele buraco. Estava em minha fazenda em Minas Gerais, em Guaxupé, e era o diretor da Record descendo de helicóptero pedindo pra eu fazer.

NaTelinha – Foram de helicóptero te chamar?

A Record tem um monte de helicóptero. Foi numa segunda-feira de Carnaval que foram atrás de mim. Me fizeram a proposta e entrei. Depois de um tempo, cheguei no bispo Gonçalves [Honorílton], falei ‘por favor, me tira do Cidade Alerta’. ‘Você é o único sujeito que chega aqui que não quer o programa’, ele disse. Eu falei que não ia aguentar, que era muita coisa. Eu tinha Jovem Pan pra fazer também, não tava aguentando. E ele concordou. Eu falei, ‘bota o Marcelo Rezende no meu lugar’. ‘Você conhece ele?’, respondi que não, mas achava ele muito bom. E o senhor gosta, não se ofenda, de gente que vem da Globo. E o cara é ex-Globo. E o cara [Rezende] morreu me agradecendo. Eu indiquei o Marcelo Rezende pra Record sem conhecê-lo.

Só saí de lá porque o seu Roberto Justus não teve palavra. Ele me fez uma proposta pra ser o Silvio Santos do futebol, todo mundo sabe disso. Seis programas, menos sábado. Toda noite na Bandeirantes, porque ele tinha arrendado horário lá, que ele queria ser o novo Silvio Santos, que ele ia comprar o canal…

NaTelinha – Quando foi isso?

Isso tá na mídia, pode procurar. Isso foi 2008 ou 2009. Tô na minha fazenda em Guaxupé, no sábado, ia estrear no domingo o programa. Ele liga na maior cara de pau: ‘Ah, desisti do projeto. Passa segunda-feira lá no meu escritório que te pago o mês’. Falei: ‘o mês a puta que pariu, vou te meter o processo’. E meti o processo mesmo. E tá rolando lá em Brasília com uma desembargadora, uma senhora muito competente, é claro.

Não fui demitido pela Record, não fui demitido nunca na minha vida em 53 anos de microfone. Fiz um acerto com Marcos Pereira, que hoje é deputado federal e me deram 2 ou 3 milhões porque tinha um contrato absurdo com ele. Não sairia nunca de lá. Ele me deu o cano. Lá em Brasília, ele tá ganhando parcialmente o processo. Mas Deus sabe que ele perdeu. Ele me deu cano, porque foi muito sacana comigo e com muitos jornalistas. Contratou uns 30 jornalistas, pagou o mês pro pessoal todo.

Eu e meu filho não aceitamos. Tô processando ele. Tá na mão da Justiça e na mão de Deus. Ela [desembargadora] entendeu que fui demitido da Record, mas nunca fui demitido na vida, eu simplesmente fiz um acordo com a Record pra ir pra Band porque meu sonho de moleque era trabalhar na Bandeirantes.

NaTelinha – Você falou de Silvio Santos, e você foi um pouco do Silvio em 2002 apresentando o Roleta Russa. O programa chegou a bater até o Show do Milhão no SBT. Como foi essa experiência pra você?

Aí uma informação boa: ganhamos cinco quintas-feiras seguidas do Show do Milhão. Sabe o que aconteceu? Ele tirou do ar e tá voltando depois de 15 anos, sei lá. Modéstia à parte, não sou um sujeito humilde. Eu entendo que todo mundo em qualquer profissão tem que ter ambição e vaidade. A ausência da ambição e vaidade, inibe o crescimento profissional em qualquer segmento na atividade humana. O que eu quis dizer com isso? Tenho essa glória, o Silvio Santos tirou o programa dele do ar. O programa que ele apresentava, porque a gente ganhava dele.

O Luciano Callegari que me colocou no Roleta Russa. Puta sucesso. Todos os meus programas fizeram um sucesso danado. E o Cidade Alerta dei audiência também, mas aí não foi por mim, foi pela produção. E pelo Datena, que arrebentou nesse horário. Brinco com ele que vamos ser candidatos à presidência da República. Combinei com o Datena, vamos os dois pro segundo turno. Aí não tem Lula… Não tem Bolsonaro… É eu e Datena, vamos tirar no par ou ímpar quem vai ser o presidente. Se eu ganhar, tiro o Palácio do Planalto e vou levar pra Muzambinho e vou governar de lá.

Milton Neves 70: Apresentador relembra decepções, briga com Kajuru e declara voto em Datena

NaTelinha – No começo do Roleta Russa você era mais sisudo, mais sério, e depois se soltou um pouco mais…

Era um programa pra passar um certo terror. Tanto que bolei uma frase que marcou muito, na hora que o cara caía, ‘essa é a parte que mais gosto’. A Folha de São Paulo fez uma matéria muito grande comigo: ‘O buraco da Record é muito interessante’. Tinha uma mini-crítica lá que eu tava muito sisudo. E aí tava meio tenso ali, ‘vou fazer esse troço que nunca fiz na vida’. E deu certo pra cacete.

NaTelinha – Concorrer com o Silvio Santos não te intimidou?

Não. Gravava o programa lá e ia embora. Quando entrava, acompanhava o Ibope e ganhávamos dele. Aliás, uma informação pra você: eu vi o Silvio Santos pessoalmente uma vez na vida. Quando o Jassa tinha o salão lá na Faria Lima, eu entro e um monte de gente com coisa na cabeça, pra puxar e pintar, ele pegou e me reconheceu. ‘Vi hoje que você vai fazer o Roleta Russa, tô arrependido, esse produto tava na minha mão e não aceitei’.

NaTelinha – O Silvio falou isso pra você?

Falou na Faria Lima do Jassa. Falou exatamente assim.

NaTelinha – Era pra ter sido apresentado pelo Silvio…

Tava na mão dele. A Sony e o SBT negociaram, mas ele já tinha o Show do Milhão e a Record corajosamente botou o Roleta Russa em cima do Show do Milhão. Eu ganhar do Silvio é igual Muzambinho ganhar de Nova Iorque.

NaTelinha – Não tem saudade de comandar esse tipo de programa? O Datena chegou a comandar aquele Quem Fica em Pé, que era parecido, anos atrás.

É a mesma coisa. O Hélio Vargas que era o nosso diretor artístico nessa época, falou pra mim: ‘Olha, vamos ter o Roleta Russa aqui, mas não precisamos gastar tempo com piloto’. ‘Mas por quê?’. ‘Você já fez o Roleta Russa, se você fizer 30% do que fez na Record, vamos arrebentar’. Beleza, fiquei esperando. Aí veio o argentino Diego Guebel, ele entrou e botou o Datena. E me escanteou. Isso foi decisão da alta cúpula da Bandeirantes. Se me botarem às 3, 4 da manhã, e eu estiver vivo, eu vou. Eu não peço programa, não derrubo ninguém. Vou lá e faço. Se for na língua portuguesa, faço qualquer programa de rádio ou televisão, e bem feito. Sou monoglota total.

NaTelinha – Se a Band quiser voltar com o Quem Fica em Pé ou comprar o Roleta Russa, você está disponível então?

Se me chamarem… O Datena fez muito bem feito. Mas no horário a briga era muito grande, o Fausto Silva, Silvio Santos… O Datena é outro, faz qualquer coisa. A gente nasceu no rádio. O sujeito que nasce no rádio tem improviso. Ele faz programa de qualquer jeito, e eu também.

NaTelinha – Um pouquinho antes do Roleta Russa, você apresentou o Super Técnico. Você nunca cogitou a volta dele? Daria pra fazer um revival do Super Técnico?

Ele nasceu no dia 1º de maio de 1999. Modéstia à parte, já era o bonzão do rádio. Tanto que o Luís Fernando Vieira de Melo, o maior jornalista que conheci na minha vida, falava seguinte: ‘Igual esse caipira, o meu apelido era minhocão, igual esse pra fazer programa esportivo não teve, não tem e não vai ter’. E confesso que eu concordo com ele. Chega o ponto que batia no teto. Fui boicotado na TV Gazeta, TV Manchete. Na TV Gazeta fazia com o Avallone lá. O programa que não tem patrocínio, sai do ar mesmo. É um puta cara que tá no céu, não quero falar mal dele, mas ficou enciumado. Era o auge do Terceiro Tempo na Jovem Pan. O Cléber Machado era nosso telefonista, e na hora das perguntas tinha 12 pro Avallone, três pro Vanderlei Nogueira, e tinha 70 ou 80 pra mim. Aí ele não fazia pergunta pra mim. Levei quatro patrocínios pra lá. Não tenho más lembranças dele não, é um bom cara.

Fiz o Canal 100 na TV Manchete, entrava 8 da noite e o Jornal Nacional era 8 da noite. E a TV Manchete dava 2, 3 [no Ibope], que era uma glória. Aí o Alexandre Niemeyer ficou enciumado pra burro e me tirou. E foi ele apresentar. O programa acabou. E o cara não sabia, no primeiro programa foi escalar o goleiro do Santos, argentino, Agustín Mario Cejas e chamou ele de Cejas (com som de J). Porra, fodeu.

Milton Neves 70: Apresentador relembra decepções, briga com Kajuru e declara voto em Datena

Aí fui convidado pra ir pro Cartão Verde. Eu já ganhava dinheiro na Jovem Pan. Podia pagar qualquer coisa. Aí, beleza, eu tô precisando é de um smoking. Tô muito bem no rádio e agora na TV vai ser smoking. Fiz um, dois [programas], no terceiro não me chamou, no quarto ameaçou a me chamar e não me chamou mais. E hoje sei que fui boicotado por uma figura que não vale a pena citar. Porque a bancada era muito fraca. Eu ia tomar conta do programa. Ia estar até hoje na TV Cultura. É um canal muito bom, e a marca espetacular, Cartão Verde. Estaria lá ganhando honrosamente, meus R$ 7 mil, R$ 8 mil. É uma coisa ridícula até em relação ao que ganhei na Bandeirantes. Me chamaram e fui.

Tava indo com meu filho mais velho no dia do piloto, e eu falei: ‘Vou lá, não vou dar nada’. E ele: ‘Não, pai, acredita no taco e tal’. Tô na televisão desde 1ª de maio de 1999. E há 23 ou 24 anos aos domingos, em canais grandes. E agradeço a figura nojenta e asquerosa que não cito o nome, porque ele me deixou rico. Muito rico. Se estivesse lá, estaria até hoje apresentando o Cartão Verde. Ou participando. O sujeito ordinário que me boicotou, me deixou rico.

NaTelinha – E que fim levou esse sujeito?

Não merece ser citado. Pra mim morreu. E fui pra Bandeirantes. Trabalhava na Jovem Pan, era o rei da publicidade. Rádio sabe como é, rádio é um belíssimo revólver. Televisão é um canhão, bomba atômica. Ali tive contato com propaganda grande. E passei a ganhar muito mais. O valor de publicidade no rádio é X, na televisão é XYZ e etc. O Super Técnico foi um sucesso. Depois a Record me chamou, também foi um sucesso danado. E depois voltei, e tô muito feliz na Bandeirantes. E meu último estádio é o estádio João Jorge Saad.

NaTelinha – E não tem chance de voltar o Super Técnico? Já propôs isso?

Quando mudaram a grade e botaram aquele programa quase igual ao Roleta Russa, a concorrência era muito grande. Fui fazer o Show do Esporte. A concorrência era maior ainda. E tanto ele como eu, não tivemos audiência a altura que a Bandeirantes queria. Meus seguidores, tenho 4, 4,5 milhões e meio nas redes todas, os caras falavam: ‘volta com o Super Técnico, volta com o Super Técnico’. Eu obedeço. Sou contratado pra fazer programa, eles que decidem. Da mesma forma que o Diego Guebel resolveu me tirar. O argentino me tirou. É igual jogador de futebol. Técnico resolve tirar o beque central e botar o ponta esquerda, lateral direito… É o técnico que manda, o técnico era esse rapaz.

NaTelinha – Se fosse voltar, não precisaria ser necessariamente domingo. Poderia haver outros espaços na programação.

Claro, claro, tanto é que o Roleta Russa era quinta à noite e ganhávamos do Pelé da televisão brasileira, o Silvio Santos. Aliás, costumo dizer o seguinte, como todo mundo vai morrer, espero que Pelé e Silvio Santos, daqui 30 anos… O Brasil vai finalmente vai dar o real valor aos dois maiores brasileiros que o país já teve. Pra mim são dois gênios, cada um na sua área.

NaTelinha – Você já teve convite pra mudar de emissora? O Silvio você disse que viu uma vez só…

O Silvio vi aquela vez pintando cabelo. Mas já tive proposta e nunca aceitei, tenho até hoje. Não vou falar quem, mas é rádio, televisão. Deus deu pra mim muita competência. Esse sucesso todo principalmente na publicidade gerou uma inveja de uma meia dúzia de filho da puta que não tem onde enfiar a fuça. Só mostro a ponta do rabo do bezerro, porque se eu mostrar o bezerro inteiro, vai ter suicídio coletivo.

O maior jornalista esportivo do Brasil é o Galvão Bueno, tá fazendo Alpargatas, já fez Fiat, e ninguém mete o pau nele. O negócio era meter o pau no Milton Neves. Eu matei esses caras, calaram a boca. Olha o Cléber Machado, Casagrande entra, porque o diretor da Globo lá, não sei se é neto do Roberto Marinho, ele sabe o tanto que a Globo deixou de faturar com merchandising, de jornalista não poder fazer propaganda. Então, liberou.

Virei a máfia do merchan esportivo, tanto que o Pânico tinha lá o Merchan Neves. O Flávio Prado, meu grande amigo, faz 10 ações de merchandising na mesa redonda dele lá, era influenciado por gente invejosa. Bolei a seguinte a frase: ‘quem não milta, se trumbica’. A Globo agora ‘miltou’. Ela tem que me pagar royalties.

NaTelinha – Aí você engordaria ainda mais sua conta do que já está…

Não tenho reclamação disso não. Mostro de vez em quando o rabo do bezerro. Agora, a boiada toda? Mas, essa frase é boa, ‘quem não milta, se trumbica’. Eles tinham inveja. Quando a Veja publicou que eu ganhava R$ 800 mil por mês… Era muito mais que isso! Fiz a Copa do Mundo de 2006 na Record, 27 ou 28 ações em um Terceiro Tempo só. O diretor comercial tá vivo, pode perguntar pra ele.

NaTelinha – Walter Zagari?

Zagari! Grande amigo também. Vibrava com o Roleta Russa, Super Técnico, Debate Bola, Cidade Alerta. Eu conduzi o merchandising da Record, e naquela Copa fiz 28 ações em um programa só. Foi uma coisa maravilhosa. E jornalisticamente também. Sabe qual a influência negativa que isso teve na minha vida? Zero! Zero! Abriu mais portas ainda. A publicidade é tão importante pro veículo de comunicação quanto a água pro vinho.

Milton Neves 70: Apresentador relembra decepções, briga com Kajuru e declara voto em Datena

NaTelinha – Você falou sobre Nova Iorque antes, seus apartamentos lá tem história, teve até uma história com a Xuxa…

O seguinte, quando comprei dois, não dá pra ficar com dois, então eu botei pra alugar. O IPTU por ano é 50 mil dólares. É muito caro. Não vai manter dois apartamentos, botei a venda. Calhou a Xuxa que tava levando a filha dela pra Nova Iorque. Você não pode deixar ninguém morar se não for o dono junto. A Xuxa tentou botar a filha no apartamento dela, e não deixaram. E passou a procurar um apartamento. Achou o meu. Ela pegou [o quadro], olhou, ‘conheço esse rapaz’. Mas não deu negócio. O apartamento era realmente grande. Hoje tá alugado lá. É um brasileiro, alto executivo de um banco. Um está no 67º andar. Está do lado da Bolsa de Valores lá, Wall Street.

NaTelinha – Nesse tempo todo de carreira, quais foram suas maiores decepções e arrependimentos?

Arrependimento não tive não. Fui muito feliz na Bandeirantes, que é o sonho da minha vida. Decepção? Rapaz… Essa do Hélio Vargas quando disse que ‘não precisa fazer piloto, se fizer 30% do que fez antes, beleza’… Ele saiu, entrou o Diego Guebel, nunca mais vi, voltou, mas não tenho ido lá. Com essa pandemia, só tenho ido domingo à noite. Isso aí foi chato, porque tinha um background muito grande ali naquele tipo de programa. Mas, é assim mesmo.

Diretor artístico, de programação, é igual técnico de futebol. O cara acerta, como o cara erra. Mas não foi bem decepção não, porque no conjunto da obra, só tenho que agradecer um trilhão de vezes. Agora, uma coisa que falo pra você: tem muita gente que trabalhou muito na vida, no microfone. Mas, mais do que eu? Duvido. A Veja nessa matéria que fez, publicou lá: o único jornalista do mundo que sai de casa domingo cedo e volta sexta à noite. Dormia na Record. Fazia a Jovem Pan, era o bonzão da Jovem Pan e virei o bonzão da Record. Então, é isso. Deus me ajudou demais. Se eu sair daqui um dia, cinco anos… A gente tem essa conversa: ‘quando aposentar’… A gente de microfone, você só aposenta quando você é aposentado. A vida é assim. Sempre vem novidades. Se não fosse assim, o Pelé tava jogando até hoje.

NaTelinha – Tem um episódio que o pessoal lembra, e seu “grande amigo” Jorge Kajuru disseminou, que você teria dado um chute na bunda do Silvio Luiz. Sei que você já falou do episódio, mas se você puder recontar essa história, o que realmente aconteceu? Você se arrepende?

O Jorge Kajuru, influenciado por uma figura asquerosa… Ajudei muito esse rapaz, quando aluguei apartamento pra ele, escritório, a mãe dele estava doente… É um dos maiores comunicadores deste país. Mas teve uma época que falava mal do mundo. E falou mal de mim. Aliás, essa é uma decepção que tenho. Ele não podia ter feito isso. Eu sempre gostei dele, sempre o ajudei. Mas já está tudo certo, sabe por quê? No fatídico dia 30 de agosto do ano passado, tô saindo do crematório, toca o telefone, e era o Kajuru me dando pêsames.

E sobre o Silvio Luiz… Tava dormindo, na Copa de 2006, quando fazia quase 30 merchandisings por programa. Tô lá dormindo, o Mário Quaranta, que era meu coordenador de esportes da Record, me liga no meu camarim, que era um camarim maravilhoso… Toca o telefone e disse: ‘o Silvio Luiz tá de novo falando mal de você na gravação do Raul Gil’. E olha pra você ver que injustiça, no Terceiro Tempo, eu mostrei o livro dele, dei parabéns. Fui o primeiro cara a falar o nome dele inteiro, Silvio Luiz Perez Machado de Souza. E ele gostava, porque ele trabalhava na Record e eu na Jovem Pan.

A gente se dava bem. A primeira vez que apareci na televisão, foi no programa dele que tinha na segunda-feira, igual o Perdidos na Noite. A primeira vez que apareci na televisão foi na Record, no programa dele, o Clube dos Esportistas. E ele gostava, brincava comigo. De repente, não sei porque… Toda briga, tem que ter dois pra brigar. No auge dele, era muito carinhoso. Ele falava das afiliadas da Record, falava de Franca e Muzambinho, ‘terra do Milton Neves’. O prefeito de Muzambinho mandava caixas de doce de leite, e levava na casa dele, no Alto da Lapa, na perua da rádio.

Eu pegava a perua, e tinha a liberdade de fazer reportagem nas ruas. E umas duas ou três vezes, levei caixas de doce de leite que o prefeito mandava entregar. Em gratidão. E de repente comecei a crescer, ele começou a pegar no meu pé. Esse tipo de programa do Raul Gil, em rádio e televisão, a produção pergunta pro cara: ‘Quem você quer por? Pra quem você quer tirar? Pra quem não tira?’ Faz parte do jogo. E ele, em todo lugar que ia, ‘e o Milton Neves?’. Ele respondia: ‘Esse não conheço’.

Na minha opinião, o Silvio Luiz é o terceiro narrador mais importante do Brasil. Em primeiro lugar, o Luciano do Valle e depois o Galvão Bueno. E em todo lugar que ele ia, dizia que ‘esse não conheço’. E aquilo foi enchendo meu saco. E tava dormindo como te falei, o Mário Quaranta me liga. ‘Pela milésima vez, o Silvio Luiz falou que não te conhece’. Tomei banho correndo, peguei o livro dele. O Luiz Claudio, que hoje é presidente da Record, chamava ele de bispinho, peguei o Edu Zebini, que hoje tá na CBF, comandou o pessoal da Fox e tal, e o Mário Quaranta, ficamos esperando na porta do estúdio a gravação terminar, porque estava acabando.

Ele veio, e na presença desse pessoal todo. ‘Olha Silvio Luiz, é o seguinte. Aqui, esse livro o Flávio Prado me entregou na Jovem Pan pra mostrar e mostrei anteontem e aqui no Terceiro Tempo. Elogiei muito você e soube que você falou que não me conhece. Mas eu conheço muito você. Poderia me dar um autógrafo?’. Ele virou de costas, me deu uma esnobada, algo com a boca como se fosse cuspir no chão. Dizem que eu dei um chute na bunda dele e caiu no chão. O filho dele tava junto. Eu digo dizem, porque eu realmente chutei a bunda dele. Foram anos! Foi entre um ano e meio e dois anos. Então não me bota [no quadro do Chapéu]. Pode falar que o Milton Neves é péssimo, mascarado, caipira, fedido, não sabe nada, faz merchan. Podia falar qualquer coisa. Dar nota zero. Mas não, ‘não conheço’. Então por que me põe? Eu tava muito puto. E dei esse chute nele. Foi nas costas porque ele se virou. E não me arrependo não. Não arrependo! Até processei ele! O promotor foi a favor do processo. Anexei tudo. Tinha um advogado muito ruim na época e acabou não dando nada. Fico feliz porque o Silvio Luiz é uma lenda, queira ou não.

Ele é um cara, vejo pelas redes sociais… Me xinga até hoje. Quando mandam mensagem lá, fala que ‘não gosto desse cara’. Ele é um herói, porque está no ar há 200 anos, tem saúde. Ele tinha que ser o cara mais feliz do mundo. Esse é um negócio que faço questão de dizer. O Silvio Luiz é um caso raro. Ele foi ator, diretor, apresentador, repórter, narrador, tudo esse cara fez com nota 8 pra cima. A única coisa que ele fez mal pra burro, foi apitar jogo. Com o microfone, foi gênio. Ele tinha que ser um cara feliz. Noto que ele tem raiva da turma que tá aí, ele mete o pau nos narradores jovens, pega no pé do André Henning que tá fazendo um sucesso danado, pega no pé do Milton Leite que faz umas gracinhas no ar. Ele acha que só ele pode fazer gracinha. Uma pena. Quero que se couber na matéria aí, manda um abraço pra ele. Ele tinha que, e eu falei no ar: queiram ou não, é uma das lendas. Luciano do Valle, Galvão Bueno, Geraldo José de Almeida e Silvio Luiz. Os mais marcantes na minha opinião, na história da televisão esportiva. Ele tinha que ser um cara feliz, mas é amargo. Continua pegando no pé dos caras que estão começando, ou caras que estão se consagrando.

NaTelinha – Que vocês façam as pazes um dia…

Não tenho nada contra ele. Se você entrar no Google e colocar ‘que fim levou Silvio Luiz?’, que tenho uns 20 mil ex-jogadores, cronistas e etc [no site do Terceiro Tempo], que a paixão da minha vida é memória esportiva. Você vai ver a foto do Silvio Luiz, como era e como está. Ele era um galã, falo que era a cara do James Dean, célebre ator americano. E era mesmo. O tempo passa e ele tá feio, e eu tô mais feio ainda. O tempo passa, se não fosse assim, o Pelé tava jogando até hoje. Nunca tive nada contra ele, mas virou uma neurose contra mim. Não sei porque. Nunca fiz mal pra ele. Dei um chute na bunda dele porque tava muito puto. Mas, são coisas que acontecem e que ele seja muito feliz.

Milton Neves 70: Apresentador relembra decepções, briga com Kajuru e declara voto em Datena

NaTelinha – O Faustão está chegando aí na Band. O que achou da contratação dele? Vocês já se falaram?

Não tenho falado com o Fausto. Com o Fausto você fala via uma assessora que ele tem. Por causa da minha mulher, emagreci muito, sabe? Cheguei a perder 25 quilos. O dedo ficou muito fino e minha aliança tava caindo. Botei ela no meio porque é mais grosso e não perde. Vou morrer com essa aliança. Ele me viu na televisão e me achou muito magro. E o que ele fez? Mandou um relógio pra mim, absurdamente caro. E mandou roupas italianas… Domingo fiz com o que ele me mandou. Falaram no ar até que estava elegante. E falei que tenho um estilista, Faustão Cardam. Fausto Silva é um dos caras mais maravilhosos da história da comunicação deste país. Ele ajudou e ajuda gente. Ajuda muita gente. Ganha muito dinheiro, está bilionário merecidamente. Mas ele tem a mão aberta. Então, o que achei da contratação dele? Espetacular. A Bandeirantes deu duas ofertadas aí monumentais: Faustão e Fórmula 1.

NaTelinha – Você é cria do rádio, ama rádio até hoje, diziam que ele acabaria com a TV, mas não acabou. O que esperar daqui pra frente?

Quando veio a televisão em 1951, quando nasci, o Chateaubriand dizia que o rádio morreu. Morreu porra nenhuma, sempre continuou forte. O papo quando veio internet era que ‘agora o rádio acaba’. O rádio aumentou sua importância. Sabe por quê? Porque não agora que a economia está ruim devido a pandemia. Faço evento no Brasil inteiro, inclusive com um ex-jogador que não gosto, chegamos um dia em Porto Alegre, descemos no aeroporto pra ir pra Gramado, e saindo ali, demoramos mais pra sair de Porto Alegre que o voo de São Paulo até Porto Alegre. Faço evento em Salvador, Belo Horizonte, a mesma coisa. O que quero dizer? Parou o trânsito, o que o cara faz? Amarrado, com cinto de segurança ao volante? Ele liga a rádo. Nunca a rádio teve tanta audiência na vida. A prestação de serviço… O que acabou é música no rádio, isso já era. O negócio é prestar serviço. Falar onde está congestionado, onde está chovendo, tendo incêndio.

NaTelinha – No ano passado você disse gostar apenas 1% do Jair Bolsonaro. Essa porcentagem zerou, diminuiu?

Eu votei duas vezes nele. Na verdade, no primeiro turno votei no Ciro. Achava que ele era menos louco que o Bolsonaro e muito mais competente que o Lula ou Dilma. Nossa, Dilma, meu Deus, a pior política do Brasil. Mas, eu fiquei muito feliz, tava contra o PT, roubaram demais. Votaria até no Tiririca contra o PT. Mas, realmente, ele [Bolsonaro] não tocou bem a bola.

NaTelinha – Entre o PT e Bolsonaro, você escolheria quem?

Dependendo do candidato do PT… É muito subjetivo, precisa ver a época. Mas, realmente, ele tinha que ter falado menos e agido mais em relação à vacina. O meu candidato, como falei, é o Datena. Vamos empatar e tirar no par ou ímpar quem vai ser o presidente. Minha exigência é a seguinte, vou transportar o Palácio do Planalto pra Avenida Doutor Américo Luz de Muzambinho.

NaTelinha – Hoje, realizado, qual seu maior prazer na vida? O que te motiva todo dia depois de ter conquistado tudo?

Conquistei tudo mesmo. O prazer meu não é ir a teatro, ouvir música clássica, eu não entendo nada, acho horroroso. Meu prazer é estar, posso estar no 67º andar do apartamento em Nova Iorque, ou lá em Upper East Side no 41º andar, e ver a neve caindo. Meu prazer é estar tomando vinho. Todo lugar meu tem adega. Tenho milhares, umas quatro, seis mil garrafas. Então, Nova Iorque fico curtindo porque sei o quanto pé quadrado é caro, IPTU é caro. Tenho prazer em estar com taças de vinho e olhando aquilo lá.

Fico olhando e fico comemorando o que Deus me deu. E muito trabalho. Tanto que é que do 67º andar, eu fico olhando lá, e nunca imaginava. Ter 200 metros de laje é um absurdo, é um latifúndio. Tenho vinhos caríssimos, e vinhos nota 3, 5, nota 8. Outros vinhos nota 10. Abro o vinho e fico olhando falando: ‘meu Deus do céu, tô em Nova Iorque. Não imaginava um negócio desse’.

O Celso Portiolli foi lá, passando Natal e Ano Novo no meu apartamento, e ele sentiu isso de mim. Sabe qual vinho eu tomo? Travaglini. É um vinho, na minha opinião, nota 4, 5, 5,5. Um italiano bom, mas tomo por causa do Mário Travaglini que foi meu comentarista da Jovem Pan quando fui narrador em 90 e 91. Compro aquele vinho lá, porque sou um cara de muita memória, de muita gratidão. Tomo o Travaglini olhando Nova Iorque por cima e lembrando dele. E depois tomo o meu Pera Manca também. Belo vinho.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

dois × quatro =