SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) — Em 1972, durante a missão Apollo 16, Charles Duke se tornou o ser humano mais jovem a pisar sobre a Lua. Meio século depois, ele ainda é a pessoa mais nova a ter caminhado pelo solo lunar, mas o ex-astronauta americano está ansioso para passar ainda em vida o título a outro tripulante. E acredita que o atual programa espacial dos EUA, o Artemis, está no caminho para que isso aconteça ainda nesta década.

Prestes a completar 86 anos — ele tinha 36 anos e 201 dias quando pousou na Lua —, Duke segue muito ativo e estará no Brasil para a inauguração da Space Adventure (spaceadventure.com.br), exposição de itens da corrida espacial, com foco nas missões Apollo, que se abre na próxima quinta-feira (26), no estacionamento do Shopping Eldorado, em São Paulo.

Selecionado pela Nasa para fazer parte de seu grupo de astronautas em 1966, Duke teve um envolvimento muito marcante com as idas à Lua: serviu como Capcom [capsule communicator, o responsável pelo contato com os astronautas no controle da missão] durante o pouso da Apollo 11, em 20 de julho de 1969, foi um tripulante reserva da fatídica missão Apollo 13, que por pouco não terminou em tragédia em 1970, e foi piloto do módulo lunar na Apollo 16, em 1972.

E, para ele, acompanhar a descida de Neil Armstrong e Buzz Aldrin ao solo lunar foi mais tenso do que fazer o pouso na Lua ele mesmo.

“No controle da missão você está apenas olhando para uma telinha com números e dados, sem TV e sem ver nada, você está meio que imaginando o que eles estão vendo e o que estão fazendo, então a tensão fica realmente alta”, disse Duke, em entrevista por teleconferência, à Folha de S.Paulo.

Ex-piloto da Força Aérea americana, Duke entrou para a Nasa por entender que ser astronauta era o ápice da carreira de um piloto de testes, mas não sabia que teria a chance de ser um dos 12 humanos a terem ido à superfície da Lua no século 20. Agora ele espera finalmente entregar o título de “mais jovem no solo lunar” a uma nova geração de exploradores, mas acha que há limites para o quanto a humanidade pode se expandir no espaço.

Entrevista

Pergunta – O senhor está vindo ao Brasil por conta de uma grande exposição dedicada à ida da humanidade à Lua. Quão importante é, especialmente nesse momento, ter uma grande exposição do programa Apollo para lembrar ao público do que a ciência é realmente capaz?
Charles Duke – Bem, eu acho muito importante preservar o legado do Apollo por meio de exposições como a Space Adventure. Essa é a maior exposição já trazida para a América do Sul e vocês são muito afortunados de estar em São Paulo e ter essa exposição. Ela tem muitos artefatos, muito da história do programa Apollo, objetos em tamanho real, mockups do módulo lunar e do módulo de comando, os trajes espaciais, todas essas coisas que dão a você a história e as tecnologias envolvidas na construção dessas coisas.
Esperamos que 20 mil estudantes possam comparecer, sem pagar, e ser inspirados por ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Essa é parte da motivação para a exposição, trazer a história à vida com essa exposição imensa, com os artefatos que foram trazidos aqui e reunidos. Você pode passar horas, se você for como eu indo a um museu, isso será como ir a um museu. Recomendamos a todos que venham, e todos ficarão encantados.

P. – Queria saber sua motivação para entrar para a Nasa. O senhor queria ir à Lua especificamente?
CD – Bem, não achei que teria uma chance de ir à Lua, mas eu queria ser astronauta. Eu havia encontrado astronautas enquanto eu trabalhava no sistema de navegação e guiagem da Apollo no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts], e eles eram muito entusiasmados, muito vibrantes, empolgados com essa carreira. E percebi que ser astronauta é o melhor trabalho que você pode ter como piloto de testes.
Minha meta depois do MIT era ser piloto de testes, e então, quando eu concluí [o mestrado] por lá, eu tinha todas as credenciais e tinha apenas que esperar a Nasa, “vocês vão ter mais alguns astronautas?”, e, de fato, dois meses depois que me formei na escola de pilotos de testes, no verão de 1965, a Nasa diz, “estamos procurando mais astronautas para estar no programa Apollo”, e eu disse, “esse sou eu”.
Eu me candidatei, fui selecionado e comecei minha aventura de dez anos, seis anos de Apollo e depois quatro anos do ônibus espacial. Eu não voei no ônibus espacial, mas trabalhei nele antes de partir. Minha motivação era ter o melhor trabalho que eu podia ter como piloto de teste.

P. – E em julho de 1969 o senhor foi um dos astronautas que serviram como Capcom para a Apollo 11. E estava lá, em serviço, quando o pouso em si aconteceu.
CD – Bem, eu tinha sido parte do que era chamado de tripulação de apoio na missão anterior, Apollo 10, que foi um ensaio geral para o pouso na Lua, no que diz respeito a procedimentos. Nós voamos à Lua com o módulo lunar, ele não era capaz de pousar, então não tínhamos um plano de voo para realmente pousá-lo, mas tínhamos um plano de voo em que eles iam iniciar sua checagem de descida, o módulo lunar ia começar a descida e então abortar e voltar à órbita. E eu fui o Capcom para isso, e foi tudo tão bem-sucedido, que o diretor de voo, Gene Krantz, e Neil Armstrong me pediram: “ei, você não está na lista para estar com a gente, mas queremos que você venha e seja parte dessa tripulação e parte dessa equipe do controle da missão”. Fui muito afortunado de ter aquela experiência da Apollo 10, que me colocou no lugar para estar lá de novo para esse pouso histórico. E foram empolgantes 12 minutos de pouso, deixe eu te contar!

P. – Qual foi o momento mais dramático para o senhor, acompanhar Neil e Buzz à superfície como Capcom da Apollo 11, o voo da Apollo 13, para o qual você era parte da tripulação reserva, ou fazer seu próprio pouso na Apollo 16?
CD – Bem, acho que fiquei mais tenso no controle da missão na Apollo 11 do que quando de fato pousei. Quando você está pousando, na espaçonave, você tem a visão da janela, todos os sistemas e a dinâmica está lá, então você está avançando e tudo parece estar indo muito bem, e há esse sentimento de “estamos no controle, vamos fazer isso”. Enquanto no controle da missão você está apenas olhando para uma telinha com números e dados, sem TV e sem ver nada, você está meio que imaginando o que eles estão vendo e o que estão fazendo, então a tensão fica realmente alta no controle da missão, por conta de problemas que apareceram, especialmente na Apollo 11.
Então descobri que a tensão para a Apollo 11 no controle da missão, foi, para mim pelo menos, muito maior do que quando eu realmente estava fazendo o pouso.

P. – E soubemos depois que o presidente [dos EUA] Richard Nixon tinha um discurso preparado caso Neil e Buzz não voltassem da Lua. E vocês, no controle da missão, treinaram para essa eventualidade? Tinham um protocolo pronto em caso de catástrofe?
CD – Nós praticamos muito em simulações, e mais de uma vez colidimos e não sobrevivemos. Então sabíamos que, se não fizéssemos direito e se a máquina não se comportasse de acordo com as especificações, poderíamos ter problemas. Descobrimos que havia um problema que poderia surgir a 10 pés [3 metros] do solo, em que o motor tombaria você e não teria chance de se recuperar. Praticamos isso, mas a probabilidade de isso acontecer era extremamente finita. Então não nos preocupamos. Se acontecer, aconteceu. Mas seu foco está no sucesso.
Praticamos os pousos, claro, não praticamos colisões de propósito, mas era o modo como algumas simulações terminavam. E eu provavelmente, no meu tempo como parte da tripulação [reserva] da Apollo 13 e da [titular da] Apollo 16 e da [reserva] da 17, colidi com a Lua mil vezes no simulador, e você sabia que, se essa coisa acontecesse a você, era muito raro, se acontecesse, você estaria morto.
Mas você não se preocupava com isso, você estava focado no sucesso, é o que posso dizer do ponto de vista do controle da missão e da tripulação.

P. – Então o senhor diria que os políticos estavam mais preocupados com os desfechos possíveis do que vocês, que estavam fazendo tudo e se concentrando no que precisava ser feito para ter sucesso?
CD – É, nós éramos o lado técnico, nós… você sabe, se matássemos alguém, ficaríamos muito chateados e tristes de termos perdido amigos. Mas, sabe, nós não tínhamos, como Nixon, uma carta ou uma declaração que dizia “perdemos a tripulação” e o que mais que o tal discurso diria. Isso não era parte da nossa psique, acho. Era mais o lado político, e nós estávamos mais interessados no lado técnico, se algo acontecesse, como na Apollo 13, nosso foco era [entender] o que aconteceu e por que e como saímos desse problema. Então o lado técnico de engenharia era para mim mais importante do que a parte do discurso de sucesso ou de fracasso.

P. – O senhor viveu na Lua por três dias. Como se sentiu passando tanto tempo lá? Sentiu saudades depois que partiu?
CD – Ah sim, não queríamos partir. Estávamos tão empolgados que pedimos, “mais duas horas, pessoal, deem mais duas horas para a gente”, e eles disseram, “agora é hora de ir embora, vocês estão com baixa energia, voltem para dentro”. Estávamos entusiasmados o tempo todo. Tivemos três períodos de descanso, claro, mas o resto do tempo estávamos focados no plano de voo, nas travessias que estávamos fazendo, revisamos todas essas coisas e o que íamos fazer no dia seguinte e, você sabe, nos certificamos de que tudo estava pronto, nos limpamos o melhor que podíamos [da poeira lunar]. Então nosso foco era empolgação. Vamos lá, vamos sair, temos outro objetivo hoje e vamos para a montanha de pedra e escalar aquela montanha nesse carro.
Estávamos animadíssimos, com entusiasmo, empolgação e energia. Nunca perdemos isso, John [Young] e eu, e estávamos o tempo todo nos movendo. Se você ouvir as transcrições, nós estávamos nos divertindo. Foram três dias muito empolgantes e, como eu disse, não queríamos voltar, mas tínhamos que fazer isso.

P. – E com a Apollo 16, em 1972, o senhor se tornou a pessoa mais jovem a estar na Lua. O senhor esperava que, 50 anos depois, ainda seria a pessoa mais jovem na Lua?
CD – De jeito nenhum! Espero que possa entregar esse título aos próximos astronautas que pousarem na Lua. Ainda estou vivo, mas não quero ser a pessoa mais jovem que já andou na Lua com 90 anos. Eu faço 86 em outubro, então quero dar esse título, “aqui, você pode ser a pessoa mais jovem que já andou na Lua”. De toda forma, não foi grande coisa. Eram apenas quatro meses. Jack Schmitt, que estava na Apollo 17, seu aniversário era em julho, ele acabou de fazer 86, e eu em outubro. Então eram só quatro meses de diferença, mas a Nasa fez um escarcéu disso. Para mim não foi muito.

P. – E agora estamos mais uma vez focados na Lua, com o programa Artemis, e algumas pessoas acham que há uma nova corrida. Em vez de EUA contra os soviéticos, é agora EUA contra China. O senhor acha que é isso mesmo?
CD – Bem, eu não estou ativo no programa, então não posso dizer qual é a atitude na Nasa e no escritório dos astronautas. Mas eu sei que todo mundo quer ser o primeiro a voltar à Lua. Estamos trabalhando muito duro com o Artemis, e nosso programa parece estar bem encaminhado.
Estou ajudando com o rover lunar, o veículo de terreno lunar, como consultor. Queremos ser os primeiros a voltar à Lua, mas não acho que há uma corrida tal que consideraríamos ter perdido se chegássemos em segundo. Não é esse tipo de corrida. Estamos mais em uma corrida tecnológica do que em uma de um lugar onde pousar. Mas nosso programa parece estar progredindo. O Congresso sempre pode dizer, “chega, não queremos mais um programa espacial”, então nunca se sabe. Mas a Nasa parece estar adequadamente financiada agora, e o Artemis parece estar de volta nos trilhos. Então, espero que nesta década, antes cedo que tarde, teremos outra tripulação na Lua.

P. – O senhor acha que vamos colonizar o espaço?
CD – Bem, acho que Deus nos deu um grande planeta onde viver e, sabe, não precisamos andar por aí nele em trajes espaciais. Se estivéssemos em Marte e tentássemos colonizar Marte, toda vez que você saísse, teria de usar um traje espacial. E isso não parece ser o jeito certo de viver. Eu não me incomodaria de ir a Marte para uma exploração de dois meses, mas viver lá não seria muito empolgante, acho.
Eu visualizo a gente indo à Lua, talvez para Marte no fim das contas, mas esse provavelmente é o limite da exploração espacial para a humanidade. Marte fica bem longe, é muita exposição à radiação cósmica. E acho que isso é algo que está no coração das pessoas, explorar, ir adiante, e seja indo para o fundo do mar, ou com um microscópio, ou um telescópio, ou com a experiência humana, estamos programados para aprender, descobrir e usar essas descobertas.

RAIO-X
CHARLES DUKE, 85
Nascido em Charlotte, nos EUA, foi o décimo ser humano a pisar na Lua, na missão Apollo 16, realizada em 1972. Após deixar a Nasa, em 1976, passou a atuar como empreendedor e consultor

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