Dona Olinda Bonturi Bolsonaro, mãe do presidente Jair Bolsonaro, foi vacinada com a CoronaVac, imunizante desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, ligado ao governo paulista.

Olinda tomou a primeira dose no dia 12 de fevereiro, como publicou em primeira mão o R7.

A informação de qual vacina foi aplicada na mãe do presidente é relevante apesar de a família ter pedido para o município de Eldorado, no interior paulista, não divulgá-la.

Em declarações desde meados de 2020 o chefe do Executivo federal, seu filho, questionou a qualidade do imunizante, afirmou que seu maior problema era a origem chinesa e o reduziu a uma bandeira eleitoral de seu principal adversário político, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

Também veio da família de Olinda, de seu neto, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), uma acusação que ajudou a estremecer as relações entre China e Brasil. Uma postagem nas redes sociais é apontada como uma das responsáveis pelos atrasos na liberação de insumos do país asiático aos institutos brasileiros Butantan e Fiocruz, que produzem no país, respectivamente, os compostos do laboratório Sinovac e da farmacêutica AstraZeneca.

Eduardo Bolsonaro afirmou no Twitter que a China propositalmente escondeu a covid-19 e deixou de salvar vidas.

O cruzamento de dados do SUS (Sistema Único de Saúde), do governo federal, com detalhes da campanha nacional de vacinação contra covid-19 em todas as cidades do país, e informações da Secretaria Estadual da Saúde paulista mostraram que, em Eldorado (SP), apenas 26 aplicações foram feitas em 12 de fevereiro, todas da CoronaVac.

A última dose da AstraZeneca recebida por um morador do município, até a última atualização de quarta-feira (17), ocorreu no dia 9 deste mês, três dias antes de Olinda receber o enfermeiro Valter, servidor municipal, em sua residência.

Dos 1.315 habitantes que obtiveram a primeira dose, apenas 50 tinham em suas seringas o produto da AstraZeneca. Idosos com mais de 80 anos foram 120 até quarta, dos quais 115 receberam a CoronaVac.

No final de julho de 2020, em sua live semanal, quando os estudos de vacinas eram somente uma possibilidade de resposta à pandemia, Bolsonaro afirmou que o Brasil utilizaria a opção desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca e não a “daquele outro país”.

Em 20 de outubro, ele fez o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, cancelar a compra de 46 milhões de doses da Sinovac, negociada por Doria, em São Paulo. E postou em seu Twitter uma justificativa.

“A vacina chinesa de João Doria, qualquer uma antes de ser disponibilizada à população, deve ser comprovada cientificamente pelo Ministério da Saúde e certificada pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. O povo brasileiro não será cobaia de ninguém. Minha decisão é a de não adquirir a referida vacina.”

A explicação perdeu força um dia depois, quando passou a dizer que não compraria a CoronaVac simplesmente por ser da China.

Em 21 de outubro, em entrevista à Rádio Jovem Pan, afirmou que a CoronaVac não tinha credibilidade. “Da China nós não compraremos, é uma decisão minha”, decretou.

A jornalistas, em um evento no mesmo dia, comentou que, até onde sabia, nenhum país do mundo tinha interesse em comprar a vacina da China. A negociação para antecipar as compras foi classificada por Bolsonaro “como a única cartada” de Doria “em busca da popularidade que ele perdeu na pandemia”.

No dia 22 de outubro, ao conversar com apoiadores no cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada, disse que a vacina não transmitia segurança “por sua origem”.

Em novembro, comemorou quando os testes nacionais da CoronaVac foram interrompidos pela Anvisa após a morte de um dos voluntários. O suicídio, no entanto, não tinha qualquer ligação com o imunizante, e o estudo foi retomado. “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, escreveu o presidente em um comentário no Facebook.

Na ocasião, analistas e opositores apontavam que o presidente estaria pressionando o presidente da Anvisa, seu aliado Antonio Barra Torres, a vetar a autorização da vacina chinesa.

Em 15 de dezembro, quando se configurava que a substância desenvolvida na China era a mais próxima de aprovação no Brasil, ele declarou que não tomaria a vacina, de jeito nenhum.

Logo após sair o anúncio de que CoronaVac tinha eficácia de 50,38%, chegou ao cercadinho, em 13 de janeiro, ironizando o resultado: “Essa de 50% é uma boa?”. Em seguida, comentou que foi criticado por ter apontado a falta de qualidade do produto.

“O que eu apanhei por causa disso, agora estão vendo a verdade. Estou há uns quatro meses apanhando por causa da vacina. Entre mim e a vacina tem a Anvisa”, disse, colocando em dúvida a aprovação do imunizante.

Assim que ela foi aprovada pela agência reguladora, porém, em 17 de janeiro, aceitou o resultado, mas tentou tirar o mérito do rival paulista de ter apostado no estudo chinês: “A vacina é do povo brasileiro, não é de governador nenhum.”

Em outra conversa com seus eleitores no Alvorada, no início deste ano, Bolsonaro citou que, apesar de ter decidido não tomar vacina contra covid-19, ele e os irmãos estavam discutindo se a mãe, em idade avançada, deveria ser imunizada.

Pouco depois, informou que votou a favor da aplicação, mas aguardava a decisão dos irmãos.

Além da dificuldade em aceitar o composto da China, Bolsonaro minimizou durante a pandemia a importância da vacinação.

Também em janeiro, o presidente citou que em uma pesquisa própria que fez na praia, nas ruas e em conversas com apoiadores percebeu que menos da metade da população tinha a intenção de se vacinar.

Bolsonaro determinou que a vacina não seria obrigatória e criticou os laboratórios por terem pensado tanto nos imunizantes e não no desenvolvimento de remédios. Ele é um defensor declarado do tratamento precoce com o uso da hidroxicloroquina, prática que não tem comprovação científica.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa do Palácio do Planalto para saber se o governo gostaria de comentar algo sobre a vacinação de Olinda Bonturi ou em relação ao composto chinês, mas até a publicação, não houve resposta.

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