TEL AVIV, ISRAEL (FOLHAPRESS) — A Covid voltou a assustar Israel. A chegada da variante delta acabou com a sensação idílica de pós-pandemia numa das nações que mais vacinaram sua população no mundo e que reabriu a economia há apenas três semanas. Nos últimos dias, surtos causados pela mutação primeiro identificada na Índia têm pipocado pelo país, levando a mudanças na estratégia de autoridades e acabando com a sensação de alívio nos habitantes, que imaginavam estar protegidos devido ao sucesso da imunização em massa.

Ainda que poucos, os novos casos chamam a atenção. Maio e junho foram os meses com menos óbitos por coronavírus em Israel em um ano. De 14 a 21 de junho, por exemplo, não houve uma morte sequer.

Mas de uma média de apenas 20 infectados diários, Israel começou a registrar números acima de 100. Na segunda-feira (21), 122 pessoas receberam o diagnóstico de Covid. Na terça (22), 110, e, na quarta (23), 138. Atualmente, já são mais de 680 casos ativos no país – cifra bem acima dos 200 da média de maio, apesar de muito inferior ao auge de 85 mil infecções ativas antes da campanha de vacinação.

Autoridades de saúde já disseram que vão reimpor a obrigação do uso de máscaras em locais fechados – que havia sido revogada em 15 de junho – caso sejam detectados mais de 100 casos por dia, em média, durante uma semana. A principal preocupação é o fato de que os surtos estão ocorrendo em escolas, já que crianças até 12 anos não foram vacinadas e só 4,5% dos 600 mil adolescentes de 12 a 15 anos do país receberam a primeira dose – a vacinação para essa faixa etária começou há apenas duas semanas.

“Estou preocupado”, admitiu Nachman Ash, líder da força-tarefa anti-Covid-19 de Israel, em entrevista a uma rádio local. “O aumento de casos é certamente uma mudança de viés. Esperamos poder apagar o fogo nesses pontos, mas existe a possibilidade de propagação.”

O consultor da OMS Eyal Leshem, diretor do Centro de Medicina de Viagem e Doenças Tropicais do Centro Médico Sheba, disse que o temor é o de que Israel repita o que acontece atualmente no Reino Unido, onde, apesar do alto nível de vacinação, há uma alta de hospitalizações devido à variante delta.

“Tudo o que acontecer conosco nas próximas semanas pode ser uma repetição da Inglaterra”, diz Leshem. “A variante delta já foi encontrada em mais de 80 países no mundo, e, onde ela entrou, tornou-se rapidamente a predominante. Isso pode acontecer aqui também.”

Em Israel, 63% da população já recebeu ao menos uma dose do imunizante da Pfizer/BioNTech, e 59%, as duas. Acima dos 50 anos, o percentual de totalmente imunizados chega a 90%. Para Leshem, é possível dizer que Israel vive uma situação de imunidade coletiva, com 70% da população vacinada ou recuperada, já que mais de 830 mil pessoas já foram infectadas pelo vírus.

A delta, porém, espalha-se mais rapidamente e, além de poder infectar crianças e os cerca de 10% dos adultos que ainda hesitam em se imunizar, está sendo detectada também em adultos vacinados. Dados do governo da Escócia relatados na revista médica The Lancet, ainda sem revisão por pares, indicam que a eficácia das duas doses do imunizante da Pfizer é de 92% para a variante alfa e de 79% para a variante delta. A vacina da AstraZeneca mostrou eficácia de 73% para a alfa e 60% para a delta.

Dois locais se tornaram centro de preocupação: as cidades de Modi’in e Binyamin, mas há outros pequenos focos espalhados pelo país. No total, cerca de 300 crianças e algumas dezenas de adultos receberam o diagnóstico de coronavírus e milhares de pessoas estão em quarentena.

O resultado é o aumento da procura pela vacinação entre adolescentes. Morna até então devido à sensação de normalidade, ela quadruplicou nos últimos dias. Hezi Levi, diretor-geral do Ministério da Saúde, admitiu à mídia local que não houve urgência, por parte da pasta, em alavancar a vacinação dessa fatia da população, algo que, agora, mudou.

Diante desse panorama, o novo premiê de Israel, Naftali Bennett, restabeleceu o Gabinete do Coronavírus, que havia sido desmembrado, e fez um pronunciamento na terça (22) no qual pediu que os israelenses não viajem ao exterior, a não ser em casos vitais. O novo surto começou devido à reabertura do país, ainda que limitada, a estrangeiros e ao aumento de israelenses viajando ao exterior, principalmente a seis países considerados perigosos – Brasil, Índia, Rússia, África do Sul, México e Argentina.

Em teoria, só podem viajar ou voltar desses países quem receber autorização especial de um comitê do Ministério da Saúde. Mas no aeroporto internacional Ben Gurion, praticamente a única porta de entrada aérea em Israel, não havia muita checagem.

Muitos também falsificaram as autorizações, e outros buscaram voos com conexão em países liberados. “Enquanto houver pessoas viajando e voltando do exterior, há perigo de importação de novas variantes e do aumento no número de casos”, diz Leshem.

O ministro da Saúde, Nitzan Horowitz, prometeu apertar o cerco no aeroporto e aplicar multas altas a quem ignorar as instruções. A partir de agora, qualquer passageiro terá que fazer um teste PCR ao desembarcar em Israel – mesmo os já imunizados. Quem estiver infectado terá de ficar em quarentena com uma pulseira eletrônica que alerta as autoridades caso a pessoa se afaste de casa. O governo também anunciou que a volta dos turistas, marcada para 1° de julho, foi adiada para 1° de agosto.

Apesar de toda a preocupação, Leshem afirma que Israel ainda está numa boa posição devido à vacinação em massa. Assim, afirma ele, mesmo que haja mais hospitalizações, não haverá tantas mortes como nas três ondas enfrentadas pelo país desde março de 2020. Ao todo, quase 840 mil israelenses foram infectados desde o começo da pandemia e 6.429 morreram.

“A maioria dos infectados é formada por jovens saudáveis ou pessoas que já foram imunizadas. Portanto, embora já existam centenas de casos da variante delta no país, ainda não vemos aumento no número de pacientes hospitalizados, em estado crítico, ou na mortalidade. O maior perigo são os 10% de adultos israelenses que não se vacinaram. Esses sim podem desenvolver uma doença grave”, diz ele.

No pronunciamento, o premiê também revelou que, apesar de ter doses suficientes para imunizar os jovens de 12 a 15 anos e os adultos hesitantes, o estoque de Israel vai expirar no fim de julho. Diante dos surtos recentes, o país tenta adiantar a chegada dos novos carregamentos da Pfizer/BioNTech, marcada para o último trimestre deste ano. A ideia é ministrar uma terceira dose a partir de janeiro para os já imunizados e vacinar crianças com até 12 anos assim que o FDA, órgão regulatório dos EUA, der sinal verde à aplicação dos imunizantes a essa faixa de idade.

De acordo com Leshem, o caso israelense pode ser um alerta para o mundo de que a Covid veio para ficar.

“É possível aprender com Israel que, se você chegar a uma situação em que a maioria da população, principalmente a mais idosa, é vacinada, você pode voltar a uma vida normal. Mas não há, na medicina ou na vida em geral, risco zero. Temos que ficar de olho.”

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