A influência da religiosidade sobre a saúde é resultante de vários fatores. Estilo de vida, suporte social, sistema de crenças, práticas religiosas, direção e orientação espiritual – tudo isso pode induzir na maneira como encaramos um problema nosso ou de outras pessoas. Tanto que uma pesquisa do Instituto Dante Pazzanense apontou que a prática regular de atividades religiosas, quaisquer que sejam, pode reduzir o risco de morte em até 30%. Esses estudos querem mostrar que um maior envolvimento religioso está associado a indicadores de bem-estar psicológico, como satisfação com a vida, felicidade e melhora na saúde física e mental.

O fato é que, tanto nos estudos, quanto na observação de profissionais que atuam diretamente com o assunto, a fé também se manifesta no paciente ao receber um diagnóstico, por acreditar no tratamento, no médico e na recuperação, e isso pode ajudar na melhora e até cura.

De acordo com a psicóloga especialista em comportamento, Ana Raquel Calaça, essa conduta é natural pois dá ao paciente conforto frente ao desconhecido. “A fé e espiritualidade ajudam muito principalmente aos pacientes terminais, dando uma melhor qualidade de vida e estabilidade emocional”, explica.

A psicóloga destaca, porém, que quando esses costumes se tornam exagerados, podem levar ao fanatismo, extremismo e uma visão reducionista. “Não é raro as crenças levarem a um caminho que faz a pessoa não se responsabilizar pelos seus atos, pois tudo está na mão de algo superior a elas”, explica.

Fé x religião

Quando se fala em religião para a cura, muitas opiniões se dividem. A definição de fé é a crença intensa na existência de alguma coisa, convicção acentuada e persistente em algo abstrato que, para a pessoa que crê, se torna verdade. Para o Padre Nilson Nunes, a fé no processo de cura é fundamental. O religioso relata que já ouviu muitos testemunhos de pessoas que estavam desenganadas pela ciência. “Elas recorreram a Deus e foram curadas. Jesus curou muitas doenças e continua agindo, ele está vivo e a cura acontece pela fé, pois Jesus quando curava alguém sempre dizia: ‘Tua fé te salvou’”, cita.

Os casos de charlatanismo, no entanto, são comuns – o que deixa os mais céticos ainda mais convictos da ineficiência do poder da fé na saúde. Um exemplo recente é o caso do médium João Teixeira de Farias, o João de Deus, famoso no mundo todo por suas curas e que alcançou milhares de seguidores em todo o planeta.

Apesar das dezenas de denúncias de abuso sexual, muitos ainda acreditam que o que João de Deus fazia era real e que a conduta criminosa do médium não interfere na sua influência sobrenatural. É o caso da estudante Maria*, ela conta que chegou a ir a Abadiânia para se consultar com o médium. “Tudo acontecia às claras, na frente de uma multidão, não teria como ele fazer nada sem as pessoas verem”, defende. Ela também alega que foi curada de síndrome do pânico e ansiedade. “Sofria muito com isso e depois da visita melhorei”, explica. João de Deus foi condenado a mais de 60 anos de prisão por estupro de vulnerável, violação sexual mediante fraude e posse ilegal de armas de fogo.

Fé que conforta

O atendente de farmácia, Almir Alves de Oliveira, de 46 anos, é um dos exemplos do poder curativo da fé. Ele descobriu ao acaso um tumor no cérebro e relata que acredita ter vivido uma experiência sobrenatural. Almir levou uma pancada na cabeça e, no hospital, descobriu estar com um cisto que se aproximava do tamanho de um limão. O caso aconteceu no fim de 2015. “Perguntei ao neurologista se era por causa da pancada, e a resposta é que aquele acidente foi Deus avisando o que estava acontecendo comigo”, conta.

“No dia da cirurgia, as chances não eram boas. Eu poderia ficar com sequelas, sem falar, sem enxergar, sem ouvir e, até mesmo, com um lado do corpo paralisado”, explica. Na véspera da operação, Almir lembra que estava nervoso e, enquanto esperava ser levado para a sala de cirurgia, orou. “Não conseguia nem rezar direito. Só soluçava, lembrei que Jesus também sentiu medo e, ao mesmo tempo, me toquei que estava me comparando com Cristo. Eu não sou digno nem do pó. Deitei na cama e chorei. Quando acordei, estava em paz. Nunca tinha sentido aquilo na vida. Parecia que eu ia para casa, era uma sensação muito boa, estava em êxtase, calmo e eu tinha certeza que quando acordasse estaria tudo bem”, conta.

Almir explica que não ficou com nenhuma sequela. Porém, quatro dias após, saiu o resultado da biópsia: o tumor era maligno e precisaria continuar o tratamento com radioterapia. Mais uma vez ele caiu em prantos. “Eu não tinha vontade de fazer nada, mas a minha enteada falou que tinha uma missa no Bessa, a Missa da Luz, e me chamou para que eu pudesse ir. Lá novamente senti a presença de Deus, como naquele dia antes da cirurgia. Estava mais uma vez em paz e com confiança de que iria sair dessa. A última sessão de radioterapia foi em 2017, e eu continuo acompanhando porque é um tumor com alto grau remissivo, mas ele não vai voltar”, acredita.

*Nome substituído a pedido para preservar a identidade da entrevistada.

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