A embaixada do Brasil nos EUA comunicou oficialmente o Itamaraty ainda em setembro de 2020 sobre a carta enviada pela Pfizer, no dia 12 daquele mês,  pedindo por respostas do governo federal em relação à oferta da farmacêutica de 70 milhões de doses.

O telegrama, que está disponível em resposta a pedido ao Itamaraty por meio da Lei de Acesso à Informação, foi recebido pelo órgão no dia 15 daquele mês, três dias depois do envio da carta da Pfizer a autoridades da cúpula do governo federal.

 

O documento se soma às revelações do ex-secretário Especial de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten, e do gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, na CPI da Covid. Os dois convocados afirmaram que o governo não respondeu às ofertas da farmacêutica, enviadas desde agosto de 2020.

Com a falta de retorno, a Pfizer então enviou a carta para o presidente Jair Bolsonaro no dia 12 de setembro, pedindo por pressa na definição do negócio. Wajngarten ainda afirmou que o governo demorou quase dois meses para responder à carta e iniciar as negociações, o que teria acontecido somente após iniciativa individual dele de avisar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Só então, ainda de acordo com Wajngarten, que as tratativas teriam começado entre o governo e a farmacêutica. O telegrama, porém, mostra que além de ter sido informado da carta, o governo federal já havia tido contato com representantes da Pfizer para falar da vacina.

 

“A empresa tem-se reunindo com representantes dos ministérios da Saúde e da Economia, bem como desta embaixada (vide tel 1618) para tratar da vacina. Disse que proposta de fornecimento da vacina foi compartilhada com o ministério da Saúde”, escreveu o ministro-conselheiro da Embaixada Brasileira nos EUA, Bernardo Paranhos Velloso, em telegrama recebido em 15 de setembro.

No resto do documento, Velloso pontua trechos da carta onde a Pfizer fala que a rapidez do governo para fechar o contrato seria “crucial” para garantir as doses ainda em 2020, devido à alta demanda de outros países que já negociavam com a farmacêutica.

Procurado pelo R7, o Itamaraty não respondeu se o então chanceler, Ernesto Araújo, e o presidente Jair Bolsonaro foram informados da carta. Araújo presta depoimento aos senadores nesta terça-feira (18), onde deve ser perguntado sobre as ações de sua gestão para obter vacinas contra a covid-19.

Na época em que a carta da Pfizer foi revelada, em janeiro de 2021, o governo federal justificou a demora para comprar as doses pela exigência da empresa de não ser responsabilizada por possíveis eventos adversos da vacina, entre outras “cláusulas abusivas”, como classificou o ministério da Saúde.

Um dispositivo para destravar os contratos com a Janssen e a Pfizer foi inserido em minuta da medida provisória 1026/2021, com respaldo da Saúde, mas acabou excluído da versão final, publicada em janeiro. O contrato com a Pfizer acabou sendo fechado em março, após o Congresso aprovar uma lei para permitir que a União assuma riscos e custos de qualquer efeito da vacina.

Carta da Pfizer

Em seu depoimento a senadores na CPI que investiga possíveis omissões do governo federal no combate à pandemia de covid-19, Fabio Wajngarten confirmou a existência de uma carta da Pfizer ao governo federal cobrando por respostas à ofertas anteriores.

A carta, escrita pelo presidente da Pfizer, Albert Bourla, foi endereçada ao presidente Jair Bolsonaro, com cópia para o vice-presidente, Hamilton Mourão, o então ministro da Casa Civil, Braga Netto, o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o embaixador do Brasil nos EUA, Nestor Foster.

Wajngarten porém, afirmou mais de uma vez no depoimento que o presidente Jair Bolsonaro não sabia da oferta. Ele ainda atribuiu a demora para fechar o negócio por “incompetência” e excesso de burocracia no ministério da Saúde, mas evitou culpar o ex-ministro Eduardo Pazuello pela falha.

Já o depoimento de Carlos Murillo aos senadores confirmou que integrantes do ministério da Saúde se reuniram com a Pfizer antes mesmos das primeiras ofertas, em agosto do ano passado, mas que as ofertas da farmacêutica não foram respondidas até a entrada de Wajngarten nas tratativas.

 

Cronologia

de acordo com depoimentos na CPI e documentos oficiais

Maio  e Junho de 2020 – Representantes da Pfizer e do governo Bolsonaro têm primeiros encontros

Agosto de 2020 – Pfizer faz as três primeiras ofertas oficiais, nos dias 14, 18 e 26 de agosto, que não foram respondidas

Setembro de 2020 – Pfizer envia carta à cúpula do governo federal pedindo por respostas das ofertas

Novembro de 2020 – Segundo Wajngarten, governo respondeu à oferta somente a partir de iniciativa dele, no dia 9.

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