Jair Bolsonaro e seus devotos odeiam a realidade e a China. Mas esses são os únicos lugares onde se pode conseguir matéria-prima para fabricar as vacinas necessárias à imunização dos brasileiros contra a Covid. É de origem chinesa o ingrediente que permitirá ao Butantan e à Fiocruz fabricar as únicas vacinas que estão ao alcance do Brasil: a CoronaVac e a de Oxford-AstraZeneca.

Hostilizada por Bolsonaro e seu séquito ideológico-familiar, a China retarda o envio dos insumos. Se a resistência de Pequim não for dissolvida até o final de janeiro, a realidade logo transformará a esperança das vacinas aprovadas pela Anvisa na frustração da escassez de doses.

Há um mês, falando para uma comissão de senadores, o general Eduardo Pazuello, suposto ministro da Saúde, declarou que seriam repassados aos estados neste mês de janeiro 24,5 milhões de doses de vacinas anti-Covid —9 milhões da CoronaVac, 15 milhões da Oxford-AstraZeneca e 500 mil da Pfizer. Tudo lorota. Foram à vitrine apenas 6 milhões de doses da CoronaVac. Humilhado pelas circunstâncias, Bolsonaro viu-se compelido a rebatizar de “vacina do Brasil” o que chamava de “vacina chinesa do João Doria“.

Pela contabilidade oficial, a primeira fase da vacinação deveria imunizar 9,6 milhões de brasileiros, entre profissionais da saúde, idosos e índios. Considerando-se que são necessárias duas doses e que há uma perda de 5% das vacinas, os 6 milhões de doses da CoronaVac vacinarão apenas 2,8 milhões de brasileiros —ou 29% do público-alvo do primeiro estágio do processo.

Significa dizer que o Brasil realiza, por enquanto, não um processo real de imunização, mas uma encenação política. Para evoluir da fase cenográfica para um estágio de contenção efetiva da pandemia, será necessário vacinar algo como 70% dos 210 milhões de brasileiros. Graças à inépcia da gestão antissanitária de Bolsonaro, a vacinação deve se arrastar até o final do ano.

O projeto reeleitoral de Bolsonaro depende do desempenho da economia. Nas palavras do ministro Paulo Guedes, a vacina é “o capítulo mais importante” da resolução da crise. “O retorno seguro ao trabalho exige a vacinação em massa da população brasileira”, declarou o ministro da Economia. Numa conjuntura assim, o presidente deveria buscar aliados e evitar novas encrencas. Mas a ideia de que a resolução da crise passa por iniciativas do rival Doria e pela colaboração da China provocou um novo curto-circuito na retórica de Bolsonaro.

Numa hora em que todos estão preocupados com a vacinação, o capitão achou que seria uma boa ideia afirmar que “quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas”. O Brasil ainda tem liberdade, mas “tudo pode mudar”, disse Bolsonaro. Não parece haver militares interessados em virar a mesa. Mas a palavra impeachment voltou a soar em Brasília. O que não deixa de ser um indício de que, sob Bolsonaro, não se deve excluir a hipótese de que tudo realmente possa mudar.

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