O deputado Eduardo Bolsonaro notabilizou-se pela disciplina com que costumava administrar suas obsessões. Dividia-se entre a devoção à figura de Donald Trump e o achincalhe à China. Atingia o êxtase quando conseguia combinar num mesmo comentário a louvação ao ídolo americano às caneladas no regime de Pequim. De repente, emudeceu. Descobriu que quem tem calos não deve se meter em apertos.

O silêncio do filho Zero Três do presidente da República foi imposto por dois movimentos inusitados do seu pai. Num, Jair Bolsonaro afagou Joe Biden, o sucessor de Trump, em carta remetida à Casa Branca. Noutro, mendigou uma conversa telefônica com o presidente chinês Xi Jinping. Com dois anos de atraso, o capitão começa a se dar conta de que países não têm amigos, mas interesses.

Há dois meses, o deputado Eduardo Bolsonaro, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, alardeou numa rede social que o Brasil rejeita a tecnologia chinesa para o 5G e apoia a iniciativa de Trump de criar uma aliança global sem “espionagem” da China para a internet móvel de quinta geração. Abespinhado, o embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming, perdeu os modos.

Wanming anotou na mesma rede social que as acusações de espionagem, por “infundadas”, “solapam” a relação entre os dois países. Recordou que a China tem sido o maior parceiro comercial do Brasil há 11 anos. Avisou que se o Zero Três e outras personalidades ligadas ao governo não parassem de distribuir caneladas, arcariam com as consequências negativas, amargando a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil.

O governo deu de ombros. Bolsonaro ordenou ao chanceler Ernesto Araújo, outro trumpista sinofóbico do bolsonarismo, que admoestasse o embaixador chinês. Decorridos 60 dias, Pequim dá o troco. O Brasil depende de insumos produzidos na China para ampliar a produção nacional de vacinas no Butantan e na Fiocruz. A China retarda o envio da matéria-prima. E Bolsonaro, à procura de um imunizante contra a queda de popularidade, se rende ao pragmatismo diplomático.

Em março de 2020, o Zero Três já havia cutucado os chineses com o pé ao postar na internet o seguinte: “Quem assistiu Chernobyl vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. Mais uma vez, uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução.”

Seguiu-se um bate-boca virtual no qual o embaixador Wanming “exigiu” que o filho do presidente “retire imediatamente” suas declarações, “e peça desculpas.” O vice-presidente Hamilton Mourão foi ao ponto: Se o deputado se chamasse “Eduardo Bananinha”, ninguém lhe daria importância.

No alvorecer do seu governo, Jair Bolsonaro cogitou guindar o filho, exímio fritador de hambúrguer, ao posto de embaixador do Brasil em Washington. Não colou. Hoje, o presidente impõe ao Bananinha um tratamento comparável ao de uma personagem de ficção criada pelo escritor gaúcho Josué Guimarães —uma mulher que diminuía diariamente de tamanho.

Os familiares se esforçavam para que a mulher não percebesse o próprio encolhimento. Rebaixavam os móveis. Serravam os pés de mesas e cadeiras. A diferença é que Bolsonaro rebaixa a estatura do seu filho cortando-lhe a língua, sem precisar adaptar a mobília. Se Eduardo tiver de reprimir as idiossincrasias por muito tempo, logo terá de guardar seu ego numa caixa de fósforos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

12 + quatro =