Após afirmar que “o Brasil está quebrado, e eu não consigo fazer nada”, e culpar a imprensa por isso, Jair Bolsonaro (sem partido) disse que um dos motivos do desemprego alto é que “uma parte considerável [dos brasileiros] não está preparada para fazer quase nada“.

Com isso, ele se contradiz. Afinal, Jair é a prova viva de que mesmo alguém despreparado consegue não apenas se tornar presidente da República, como se manter no cargo demonstrando incapacidade técnica e falta de empatia.

Um dos segredos de seu sucesso é que, provavelmente graças a seu “histórico de atleta”, o presidente é campeão invicto no Arremesso de Responsabilidade.

No caso do desemprego, que ultrapassou 14,3% da população, no trimestre encerrado em outubro, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, ele tenta convencer que a culpa é da baixa qualificação dos trabalhadores.

Vale lembrar que no trimestre encerrado em dezembro de 2013 o desemprego era de 6,2%. Ou seja, é possível criar condições internas para a geração de postos de trabalho, agindo de forma racional e pragmática no comércio externo. A questão é se ele e sua equipe sabem como fazer isso.

Não é a primeira vez que usa essa justificativa. Em maio de 2019, Bolsonaro afirmou que há milhões de trabalhadores desempregados “que não têm como ter emprego porque o mundo evoluiu” e eles “não estão habilitados a enfrentar um novo mercado de trabalho, a indústria 4G”.

Provavelmente, se referia ao termo “indústria 4.0”, que se refere a tecnologias de automação e troca de dados. Isso inclui inteligência artificial, big data, impressão em 3D, biologia sintética. Seria uma quarta fase da revolução industrial.

Os gigantescos problemas de qualificação que temos à nossa frente, contudo, são bem mais prosaicos e possíveis de serem atenuados pelo governo e passam por formação básica de qualidade. Desde que o governo estivesse realmente interessado, claro. Infelizmente, ele transformou o Ministério da Educação em trincheira de sua guerra cultural.

Por enquanto, o trabalho de “formação” bolsonarista resultou em um aumento no número de brasileiros que desconfiam de vacinas – saltou de 9% da população, em agosto, para 22%, em dezembro. Ou que prefere o voto em papel do que a urna eletrônica (23%). Dados do Datafolha.

Só por curiosidade: o número de brasileiros que acreditam que a Terra é plana é de 7%. Por enquanto.

Outra das famosas frases do presidente sobre a geração de empregos é: “Tenho pena, tenho. Faço o que for possível, mas não posso fazer milagre, não posso obrigar ninguém a empregar ninguém”.

Ele não precisa ter pena, muito menos obrigar alguém, até porque empregar não é um favor, mas um negócio de compra e venda de força de trabalho em nome de salário e lucro.

Mas o governo deve adotar medidas e não ficar apenas apostando todas as fichas em mudanças legislativas e de normas regulamentadoras e no enfraquecimento da fiscalização para reduzir a proteção dos trabalhadores e, assim, os “custos”.

Bolsonaro afirmava no primeiro ano de seu mandato que não tinha culpa pelo alto patamar de desemprego. Nisso ele tinha razão, uma vez que estávamos vivendo as consequências de decisões de governos anteriores.

Neste momento, dois anos depois de sua posse, contudo, o mimimi não deveria colar mais.

Ao lutar contra as políticas adotadas por governadores e prefeitos para o isolamento social visando ao combate do coronavírus, ele fez com que as quarentenas durassem mais. O que elevou o número de mortos e criou problemas para a retomada do emprego.

Isso sem contar que segue devendo uma política nacional para o emprego e para a qualificação de mão de obra que poderia ser chamada como tal.

Nesta terça (5), o presidente, ao reclamar de ações trabalhistas (em sua maioria, pedidos de pagamento 13º, férias e direitos não pagos em rescisões), afirmou que “ser patrão é uma desgraça”.

Não. É difícil ser trabalhador e ser micro e pequeno empresário no Brasil. Desgraça é termos um presidente que terceiriza suas responsabilidades, deixando trabalhadores e micro e pequenos empresários praticamente à própria sorte.

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