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Aos 16 anos, Thalita Melo, moradora de Itaguaí, na Região Metropolitana do Rio, já poderia exercer o direito de votar pela primeira vez em outubro — a participação dos eleitores de 16 a 17 anos é permitida, de forma facultativa, há mais de 30 anos no Brasil. Mas a falta de perspectiva sobre o cenário econômico do país e a ausência de identificação com um partido ou candidato a levaram a adiar sua estreia em eleições.

— Querer votar a gente até quer, mas a gente procura uma melhoria que nenhum candidato vai apresentar — resume a estudante, que está atenta a pautas de direitos da mulher e das populações negra e LGBTQIAP+.

O relato de Thalita reflete um dos desafios de candidatos a cargos públicos no próximo pleito. Os políticos precisarão adaptar sua linguagem e enfrentar a descrença com a política tradicional se quiserem conquistar o voto de confiança dos mais jovens. A pandemia e a preocupação com a economia ampliaram, às vésperas das eleições presidenciais, a desconexão dessa população com o sistema político. É o que apontam pesquisas e análises de especialistas sobre a percepção do processo eleitoral entre os mais jovens.

O impacto da desconexão com a política já é visível no eleitorado que não é obrigado a votar. O país registra sete meses antes do pleito a menor adesão de jovens de 16 e 17 anos ao alistamento eleitoral. Até fevereiro, pouco mais de 834 mil adolescentes tiraram o título de eleitor, o equivalente a apenas 13,6% dessa população. O eleitorado dessa faixa despencou 62% nos últimos dez anos, em ritmo maior que o envelhecimento dos brasileiros — a redução da população adolescente foi de 16% no período, segundo projeções do IBGE.

Thalita Melo, de 16 anos, está desiludida e não pretende votar. Para a estudante de Itaguaí, candidatos ignoram pautas de minorias Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Thalita Melo, de 16 anos, está desiludida e não pretende votar. Para a estudante de Itaguaí, candidatos ignoram pautas de minorias Foto: Leo Martins / Agência O Globo

“Falta representatividade. Em Itaguaí, tem uma mulher só na Câmara, nenhum LGBT… Não vejo candidatos com chance de eleição levantando essas questões”

THALITA MELO
16 anos

Outro sinal está na percepção da própria democracia. Menos da metade da população entre 18 e 24 anos considera o regime político como um valor absoluto, segundo pesquisa do Instituto Ideia Big Data, com 1.269 entrevistados em todo o país entre 3 e 7 de março. O percentual registrado, de 38%, ficou abaixo do das demais faixas etárias. Além disso, a maioria dos jovens também disse confiar pouco (37%) ou não confiar (15%) na urna eletrônica.

Percepção da juventude

 

Algumas das razões para desconfiança em relação à democracia aparecem em uma pesquisa qualitativa feita no início de março pela socióloga Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A defesa do voto é superficial nas falas de 30 entrevistados na faixa de 16 a 18 anos, de todas as regiões do país e classes sociais, grupo que também demonstrou pouco conhecimento sobre o funcionamento do sistema político. O desinteresse no tema, quando aparece, é acompanhado pelo discurso anticorrupção.

— Há uma percepção distanciada da política, falta vínculo afetivo. Os jovens sentem que não há espaço para eles. Há a visão de que a política é corrompida por natureza, de que as instituições e os representantes estão lá para buscar seu próprio benefício e se preocupam pouco com a população. É a corrupção no sentido mais amplo — enfatiza a pesquisadora.

A pandemia ampliou a percepção de abandono desse eleitorado. Foi, em meio à crise, que boa parte dos entrevistados relatou iniciar um processo de politização, em resposta à gestão do governo do presidente Jair Bolsonaro.

— A maioria diz que recebeu uma educação ruim durante a pandemia, num período de uma formação não só escolar, mas humana, o que se soma à piora na saúde mental. É um jovem que se sente perdido, que não sabe em quem votar e como vai votar. As questões estruturais se agravaram — complementa Solano.

Morador da Barra, Pedro Mendes, de 18 anos, pretende votar depois de não participar das eleições de 2020. Ele se vê afastado de temas políticos Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Morador da Barra, Pedro Mendes, de 18 anos, pretende votar depois de não participar das eleições de 2020. Ele se vê afastado de temas políticos Foto: Leo Martins / Agência O Globo

“Acabei me desligando bastante e deixando meio de lado tudo isso de política, os candidatos, principalmente depois de 2018, e depois ainda teve a pandemia”

PEDRO MENDES
18 anos

Morador da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, Pedro Mendes, de 18 anos, se enquadra nesse cenário. O jovem, que votará pela primeira vez em outubro e diz não ter predileção por partidos específicos, vai considerar a gestão da crise sanitária na hora de escolher um candidato. Pedro já poderia ter participado das eleições municipais de 2020, mas preferiu não votar na época, entre outros motivos, pela desilusão com a política.

— Acabei me desligando bastante e deixando meio de lado tudo isso de política, os candidatos, principalmente depois de 2018, e depois ainda teve a pandemia — conta.

Linguagem envelhecida

A pesquisa aponta caminhos para os políticos atraírem esse eleitor. A busca por mais informação sobre o tema esbarra na percepção de que os partidos estão distantes e não sabem se comunicar. Para as novas gerações, acostumadas com a linguagem dinâmica dos influenciadores digitais, a comunicação da política tradicional é vista como “chata e envelhecida”. Estar nas redes, falar de forma lúdica e contemplar pautas e causas caras a esse segmento, como educação, lazer e temas identitários, são imprescindíveis.

Prestes a completar 16 anos, o tijucano Enzo Moreno vai votar em outubro, cita a corrupção como preocupação e elogia debate que fala língua do jovem Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Prestes a completar 16 anos, o tijucano Enzo Moreno vai votar em outubro, cita a corrupção como preocupação e elogia debate que fala língua do jovem Foto: Leo Martins / Agência O Globo

“Podcasts são bons porque são a maneira que vejo de muita gente da minha idade se aproximar desses assuntos. Não vejo como pode ser negativo um candidato participar”

ENZO MORENO
15 anos

A participação em podcasts é um exemplo de formato que atrai a atenção desse eleitor. Prestes a completar 16 anos e ainda sem clareza sobre em quem vai votar para presidente, o morador da Tijuca, no Rio, Enzo Moreno elogia tentativas de falar a língua dos jovens.

— Esses programas de podcast são bons porque são a maneira que eu vejo de muita gente da minha idade se aproximar desses assuntos.

— Há um aspecto que vai além das fronteiras do Brasil que é a sensação de desconexão, principalmente entre os mais jovens, com a política tradicional. No Brasil, os partidos são organizações centralizadas. Mas há um aspecto pontual que é a economia: o desemprego, a renda, a inflação. Isso bate muito forte na juventude — ressalta Moura.

A maioria do eleitorado que não é obrigado a votar, por enquanto, dá sinais de que não pretende participar. A baixa procura pelo título — o prazo para ter acesso ao documento acaba em 4 de maio — acendeu o alerta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que fez uma campanha. A tentativa de aumentar a adesão dos adolescentes ganhou ainda o impulso nas redes sociais de celebridades, como a cantora Anitta, a ex-BBB Juliette, a atriz Bruna Marquezine e o ator americano Mark Ruffalo.

Moradora de Santa Cruz, Rebeca Assunção, de 17 anos, diz que pretende votar, mas que não tem predileção por candidatos ou siglas Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo
Moradora de Santa Cruz, Rebeca Assunção, de 17 anos, diz que pretende votar, mas que não tem predileção por candidatos ou siglas Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo

“Com partidos, é sempre aquilo de promessas, promessas e promessas, mas votar continua sendo necessário e importante. A dificuldade é se identificar com alguém”

REBECA ASSUNÇÃO
17 anos

A estudante Rebeca Assunção, moradora de Santa Cruz, no Rio, é uma entre os milhões de adolescentes que ainda não tiraram o título. Apesar da demora para garantir a participação no pleito, Rebeca resume um sentimento coletivo:

— Com partidos é sempre aquilo de promessas, promessas e promessas. Quando você vai ver, nada mudou. Mas isso não significa que votar deixou de ser importante. A dificuldade é se identificar com alguém.

Já Maria Eduarda Gorito, de 17 anos, moradora de Itaguaí, decidiu não ir às urnas:

— É uma escolha muito importante. Eu ainda não sei dizer se me sinto pronta para decidir algo desse tipo, principalmente com as opções que tenho visto como possíveis — diz a jovem, que lamenta a ausência de figuras femininas de destaque concorrendo a cargos nessa eleição. — Falta ainda mais visibilidade feminina. Faltam opções de voto que representem essas ideias e que estejam dentro da disputa.

O Globo

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