Dia da Consciência Negra, celebrado neste domingo (20), é sempre um momento de reflexão, luta e afirmação. Em João Pessoa, uma família vive o orgulho de uma pretitude que dá forma aos mínimos detalhes do dia a dia. Amanda Gomes e Ícaro Santos vivem juntos desde 2020 e já têm até herança dessa parceria de vida: Malcolm, de apenas um ano.

Mesmo muito novo, ele é criado para um futuro de sonhos e grandes realizações, mas também de resistência antirracista, num país onde o preconceito é só uma questão de dia e hora. Como pontua o pai dele:

“A gente quer prepará-lo para entender que isso, infelizmente, vai acontecer. A gente sabe como machuca”

E, para quem tanto preza pela educação, enfrentar um sistema intolerante e segregador é um desafio e tanto. A representatividade na criação das crianças pretas dessa geração precisa ser exaltada não como um alento, mas como forma também de igualdade.

Se antes não havia tantas opções para que elas pudessem se reconhecer nos brinquedos, nos livros e nas variadas formas de brincar e de descobrir a vida na infância, a realidade de agora já dá alguns pequenos passos para que tudo isso se torne um meio também de se autoidentificar.

Na casa de Amanda e de Ícaro, os brinquedos, os livros e até a lista de músicas de Malcolm são específicas e exaltam a cor da pele que carregam com o orgulho e a força que pedem a existência de todos eles.

Amanda, inclusive, é professora e doutoranda em Literaturas Africanas. Dá aula de português, redação e literatura para os seus alunos, mas, quando fala sobre o quão é importante aguçar a identidade de sua maior conquista, que é o seu filho, parece mesmo é que a sua maior especialidade é ser humana.

“A necessidade de uma criança elaborar no imaginário uma identificação é essencial para a construção da autonomia. Fazer escolhas de dar brinquedos, desenhos e bonecos pretos, de livros com protagonistas sendo crianças pretas, é mostrar para ele que o que ele vê no espelho também está no mundo, e não apenas que o que seu reflexo vai estar em dinâmicas de violência.

A experiência que ela proporciona ao filho é diferente da que viveu. “Foi assim que eu cresci. Nos telejornais, eram sempre apontados com violência. Nas novelas ou filmes, eram personagens estereotipados à marginalização. Alicerçar essa educação, e ele se encontrar nos livros e nos brinquedos, é essencial e urgente para que ele se veja como um ser humano”, disse.

O casal levantou a crítica que, no comércio pessoense, por exemplo, os bonecos pretos encontrados não são pensados especificamente para crianças; e, os poucos que existem, trazem poucas características que fortaleçam o reconhecimento por parte delas.

Na internet, porém, o filtro facilita uma melhor procura, mas ainda existe pouca dinamicidade para buscar brinquedos por gênero.

Por outro lado, algumas editoras independentes têm publicado livros com personagens pretos, que são protagonistas e que vivem seus espaços nas ficções infantis com o devido significado. Podcasts também têm sido uma opção acessível. Alguns, por exemplo, contam estórias para ninar, com foco principal em crianças pretas, trazendo narrativas de contos populares africanos e afro-brasileiros.

Das pinceladas nas sugestões de estórias até a história, o nome de Malcolm traz uma referência, de fato, histórica. Isso porque a definição foi inspirada em Malcolm X, um ativista afro-americano que atuou em defesa dos direitos da comunidade afro-americana durante a era americana dos movimentos dos direitos civis, entre 1950 e 1960. Caso fosse uma menina, o nome escolhido seria Dandara, uma brava lutadora quilombola na época do Brasil colonial, esposa de Zumbi dos Palmares.

“Malcolm X era uma pessoa muito forte e que tinha um grande peso no ativismo dos Estados Unidos. A escolha do nome foi para que ele cresça e saiba o quanto é representativo e o quanto foi importante a libertação dos negros. Um nome faz história. Queremos que entenda que ele pode fazer história. Estamos criando nosso filho para que ele seja uma grande pessoa”, explicou Ícaro, que trabalha como desenvolvimento de sistemas.

A cada 20 de novembro, as respostas do exemplo de luta e de resistência deixada por Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares e um dos principais representantes da resistência negra à escravidão no Brasil, assassinado nessa mesma data, em 1695, parecem ganhar ainda mais rigidez na pauta antirrascita.

Na Paraíba, no Nordeste, no Brasil ou no mundo, injúria racial é crime, com conhecimento de causa de toda a sociedade, mas ainda seguindo um fluxo de recorrência que parece não ter um ponto final. Enquanto não se dá um basta, os braços de quem busca igualdade e dignidade permanecem cada vez mais fortes e prontos para uma luta que segue sendo histórica.

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