O CEO da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, informou hoje à CPI da Covid que o governo brasileiro ignorou três ofertas para aquisição de vacinas em agosto do ano passado, três meses depois que as negociações começaram (em maio).

Se um dos acordos tivesse sido fechado, segundo estimativa do depoente, o país teria recebido até o segundo trimestre de 2021 cerca de 18,5 milhões de doses. As primeiras remessas teriam chegado em dezembro do ano passado, de acordo com o cronograma inicial.

Com os entraves impostos pelo Ministério da Saúde, o acordo só foi concretizado em março deste ano. O desfecho ocorreu sob críticas ao trabalho do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello (um dos motivos pelos quais ele acabou demitido).

Até o momento, o Brasil recebeu pouco mais de 2 milhões de doses de vacinas da Pfizer. Há mais 100 milhões que já foram compradas, mas só vem começar a chegar ao país em setembro.

Murillo também confirmou que, enquanto o governo ignorava as ofertas, a farmacêutica enviou uma carta endereçada a Bolsonaro e ministros de estado com o objetivo de pedir mais rapidez nas negociações e se colocar à disposição.

Esse documento ficou dois meses parado, sem resposta, segundo informou ontem (12) o ex-secretário de comunicação do governo, Fábio Wajngarten, também em depoimento à CPI.

As primeiras reuniões sobre a possível vacina começaram no mês de maio de 2020Carlos Murillo, gerente-geral da farmacêutica Pfizer na América Latina

Desde maio, outras duas ofertas teriam sido feitas ao governo brasileiro no período até agosto de 2020, de acordo com o dirigente da Pfizer. Em uma delas, a farmacêutica disponibilizava um lote de 70 milhões de doses.

Também em agosto de 2020, Bolsonaro acelerava o incentivo ao uso da hidroxicloroquina —substância que não tem eficácia científica comprovada no tratamento da covid. Foi naquele mês que a Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) veiculou a primeira campanha oficial de estímulo ao chamado “tratamento precoce”.

Em live realizada em 20 de agosto, o presidente se referiu ao medicamento como “nossa cloroquina” e comemorou o fato de que o fármaco havia “chegado à China”. Também nesse período, o governante costumava erguer ou exibir a caixa de um dos remédios à base de hidroxicloroquina em lives e aparições públicas.

Carta pode reforçar tese de erro do governo

Para senadores da CPI que são críticos ao governo e ao ideário de Jair Bolsonaro, o governo errou ao não efetivar a aquisição de vacinas da Pfizer. A tese ganhou ainda mais força depois do depoimento do ex-chefe da Secom Fabio Wajngarten, ontem (11), marcado por bate-boca e ameaças de prisão do publicitário.

Wajngarten afirmou aos parlamentares que a farmacêutica enviou uma carta ao governo com uma oferta de prioridade na compra dos imunizantes, porém o documento acabou ficando dois meses engavetado, sem que ninguém se preocupasse em dar uma resposta.

O documento teria sido endereçado a membros do governo, inclusive Jair Bolsonaro (sem partido), o vice Hamilton Mourão (PRTB), e três ministros. Ainda assim, Wajngarten buscou isentar Bolsonaro de qualquer culpa por eventuais omissões e minimizar a quantidade doses que supostamente foram oferecidas nas primeiras conversas com a farmacêutica —500 mil doses, disse.

Segundo o relato, insatisfeito com a situação, o publicitário teria tentado assumir a dianteira das negociações —por acreditar que era o melhor para os interesses do país. Ele confirmou ter aberto “as portas do Planalto” para as conversas com a Pfizer —informação que ele já havia revelado em entrevista à revista Veja, na qual disse também que a gestão do governo da pandemia é “incompetente”.

Os senadores questionaram se ele julgava ter sido a melhor decisão, já que era chefe da pasta de comunicação do governo, sem nenhuma relação com o Ministério da Saúde.

O depoente disse que havia se sensibilizado com a situação de vítimas da covid e que entendia ser uma iniciativa correta. Ao longo das explicações, ala de senadores enxergou contradições e mentiras por parte de Wajngarten.

* Com a colaboração de Ana Carla Bermúdez, do UOL

 

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