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O governo Bolsonaro virou uma contagem regressiva. Faltam 435 dias para o fim do mandato do capitão. E o país foi condenado pelas circunstâncias a conviver com um presidente sem projeto, sem partido e sem ministro da Economia. O centrão explodiu o Posto Ipiranga e invadiu o cofre. O problema deixou de ser o fim do teto de gastos. A questão é que o país perdeu o chão. O fundo do poço passou a ser apenas mais um estágio rumo às profundezas.

A primeira vítima da explosão é o brasileiro que se divide entre a fila do osso e a fila do desemprego. O novo Bolsa Família de R$ 400 é mastigado pela inflação antes de chegar ao bolso. A segunda grande vítima é a semântica. As declarações mais recentes de Bolsonaro desobrigaram tudo mundo de fazer sentido. Quando um presidente se junta ao rebotalho político que o cerca para proporcionar a si mesmo um Bolsa Reeleição de mais de R$ 80 bilhões e afirma que nada mudou, você sabe que está no centro de uma crise de significado ou numa roda de cínicos.

 

Bolsonaro declarou numa entrevista e na sua live semanal de quinta-feira que Paulo Guedes continua firme, que apoia as reformas liberais e que o teto de gastos permanece intacto. Disse tudo isso ao final de um dia em que uma comissão da Câmara aprovou a emenda sobre o calote nas dívidas judiciais, a equipe do Ministério da Economia debandou e as empresas listadas na Bolsa contabilizaram perdas em valor de mercado de R$ 284 bilhões no intervalo de apenas 72 horas.

Ao atear fogo na economia para tentar reacender a chama do seu projeto de reeleição, Bolsonaro força seus adversários políticos a ajustarem suas estratégias. Para não perder eleitores, Lula dobrou o populismo, pregando um Bolsa Família de R$ 600. Bolsonaro contra-atacou com o Bolsa Caminhoneiro de R$ 400. E os náufragos da chamada terceira via, que tentavam colocar em pé uma agenda para o pós-Bolsonaro foram como que intimados a se preparar para o pré-Dilma. Já não é negligenciável a hipótese de o Brasil viver uma recessão no ano eleitoral de 2022.

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