BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) — Apesar de todas as evidências, o presidente Jair Bolsonaro negou nesta terça-feira (15) a existência do gabinete paralelo que ditava a eles as regras de enfrentamento à pandemia de Covid. Caso existisse, seguiu o presidente, isso não seria um problema.

As investigações da CPI da Covid no Senado estão direcionadas aos 14 integrantes do grupo de assessoramento ao presidente para temas ligados à pandemia e com defesa de teses negacionistas.

Por meses, ao largo do Ministério da Saúde, são médicos, atuais e ex-assessores palacianos, um empresário bilionário e até um congressista desprezaram a importância da vacina e enalteceram, em sintonia com Bolsonaro, a defesa de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid.

Como o jornal Folha de S.Paulo mostrou, o gabinete paralelo participou de ao menos 24 reuniões no Palácio do Planalto e no Palácio da Alvorada. Nelas estavam, por exemplo, a oncologista Nise Yamaguchi — em 5 encontros — e o deputado Osmar Terra (MDB-RS) — que foi a 11. Há elementos ainda da participação de mais seis médicos.

Uma das reuniões com especialistas da área de saúde foi transmitida em vídeo pelas redes sociais de Bolsonaro. No encontro, o presidente recebeu a sugestão de criar uma espécie de “gabinete das sombras” para tratar da resposta oficial à pandemia da Covid. A proposta foi feita pelo virologista Paolo Zanotto.

“Foi feita uma live e ficou na minha página. Daí a CPI pega isso, diz que era um gabinete paralelo. E se fosse? Qual o problema? Eu tenho que ouvir pessoas para tomar providências. Não posso tomar providências sem ouvir pessoas”, disse o presidente.

“E era uma coisa inédita, ninguém sabia no mundo todo. E nós sempre defendemos o tratamento precoce depois de ouvir muitos profissionais de saúde como esses, que eram os Médicos Pela Vida”, completou Bolsonaro em uma entrevista via internet à RIC TV, afiliada da Record em Rondônia.

Ao longo do programa, Bolsonaro fez críticas ao presidente e ao relator da CPI, respectivamente os senadores Omar Aziz (PSD-AM) e Renan Calheiros (MDB-AL), e disse que a comissão “não sabe o que fazer” e se transformou na “CPI da cloroquina” e “agora virou a CPI do oxigênio lá em Manaus”.

Em depoimento à CPI também nesta terça, horas antes da entrevista de Bolsonaro, o ex-secretário de Saúde do Amazonas Marcellus Campêlo afirmou a ênfase no tratamento precoce em missão do Ministério da Saúde ao estado durante a crise provocada pela segunda onda da pandemia no início deste ano.

O ex-secretário evitou contrariar a fala do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello sobre a data em que o governo federal foi informado sobre problemas no fornecimento de oxigênio no Amazonas, mas reconheceu que ficaram sem respostas ofícios para o ministério para tratar do assunto.

O Ministério da Saúde enviou ao Amazonas nos primeiros dias de janeiro uma missão chefiada pela secretária de Gestão do Trabalho e da Educação da pasta, Mayra Pinheiro, que passou a ser chamada de “capitã cloroquina”, por sua defesa do medicamento.

Campêlo também confirmou parcialmente a versão dada por Pazuello sobre a data em que o governo federal foi informado sobre o colapso no fornecimento de oxigênio.

À CPI o ex-ministro afirmou que teve uma conversa com Campêlo na noite de 7 de janeiro, mas que na ocasião apenas lhe foi pedido auxílio logístico para o transporte de oxigênio.

“Quem trata disso aí na ponta da linha desta questão é o respectivo prefeito e governador e seu secretário. Não é o governo federal”, disse Bolsonaro na entrevista no fim da noite de terça.

“Fomos avisados informalmente e tomamos providências rapidamente para colaborar com o estado do Amazonas. Até porque lá foi uma coisa que aconteceu de uma hora para a outra”, afirmou Bolsonaro.

“A curva de infectados subiu assustadoramente, ninguém podia esperar aquilo. E fizermos o que tinha que fazer. O ministro Eduardo Pazuello, naquele momento, em colaboração com o governador do estado do Amazonas”, completou.

Na mesma entrevista, Bolsonaro disse acreditar que, até setembro, mais de 60% da população estará vacinada. A imunização no Brasil começou em janeiro e, até agora, apenas 15% da população tomou as duas doses de vacina.

O presidente também desmereceu a Coronavac, imunizante que garantiu o início da vacinação no país e que foi viabilizado pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), inimigo político de Bolsonaro.

O mandatário disse que a Pfizer “tem bem mais credibilidade que uma outra que foi distribuída há pouco tempo aqui e continua sendo distribuída”.

Bolsonaro insistiu ainda em sua intenção de permitir que quem já foi imunizado ou que já se infectou com o coronavírus possa dispensar o uso de máscara.

O presidente chamou de negacionistas aqueles que se opõem à ideia que está sendo estudada pelo Ministério da Saúde e que é considerada temerária por especialistas.

“Então, olha só, a pessoa que tomou vacina, se alguém quer que ela não seja dispensada do uso de máscara, essa pessoa não acredita na vacina. É uma pessoa, aí sim, negacionista”, afirmou Bolsonaro.

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