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Desde o início do mandato, o presidente Jair Bolsonaro é comparado a Odorico Paraguaçu. O personagem criado pelo genial Dias Gomes para a novela O Bem-Amado, lançada em 1973, e vivido pelo brilhante Paulo Gracindo era prefeito da provinciana cidade de Sucupira. Preocupado em manter-se no poder a qualquer custo, fazia promessas que sabia não poder cumprir, pregava para outros uma moralidade que não praticava e governava no estilo autoritário.

Muitos trechos de O Bem-Amado circularam nas redes sociais nesses dois anos, para reforçar que Bolsonaro é, na verdade, a reencarnação de Odorico. Nenhum desses vídeos, porém, foi tão fidedigno quanto o que acompanha esse texto. Contém o diálogo em que o prefeito de Sucupira relata ao seu auxiliar, Dirceu Borboleta (interpretado pelo excelente Emiliano Queiroz), sobre a intenção de manipular a distribuição de uma vacina que servirá para livrar a população de uma terrível doença.

A cena começa com Dirceu Borboleta acusando Odorico de ser desumano por tentar impedir que a vacina chegue às mãos do único médico de Sucupira, Doutor Leão, que também é o líder da oposição. “Ele não vai ter como impedir a epidemia!”, alerta o auxiliar. O personagem populista de Dias Gomes, então, antecipa em quase cinco décadas a resposta que Bolsonaro deu quando perguntado sobre as mortes por coronavírus. “E daí, seu Dirceu?”, rebate Odorico.

A obra profética prossegue com Borboleta, perplexo, classificando a situação como calamidade. “Vai morrer gente aos montes, daqui a pouco vai ter que aumentar o cemitério”, grita ele. “Vai ser um assassinato em massa, um genocídio!”.

O prefeito, então, repreende o auxiliar. “O senhor não entende de política, veja se raciocina: o que eu não admito de jeito nenhum é que o Doutor Leão se transforme em um herói”, explica Odorico. “Eu não vou dar essa vitória de mão beijada para o inimigo, se há vaga de herói nessa terra essa vaga é minha”.

A seguir, declara a intenção de interceptar as vacinas para usá-las no posto de Saúde municipal. Quando Dirceu Borboleta pergunta qual posto, já que não há nenhum em Sucupira, o prefeito diz: “No posto que eu vou construir. Odorico Paraguaçu vai salvar essa cidade”.

Clichês nascem para ser evitados, mas nesse caso não há como deixar de se espantar com a forma como, mais uma vez, a vida seguiu o roteiro fiel para imitar a arte. Fenômenos assim só acontecem quando artistas da estatura de Dias Gomes compreendem tão bem o espírito de seu povo que conseguem prever o melhor e o pior de nossa alma.

O autor de O Bem-Amado, no entanto, errou feio em um aspecto.

Dirceu Borboleta, o ingênuo e escrupuloso auxiliar de Odorico, constantemente se escandalizava com as barbaridades praticadas pelo prefeito, muitas vezes o repreendia, tentava demovê-lo. No fim, colaborava com o chefe por boa-fé, convencido por ele de que suas intenções eram as melhores.

Ao que parece, Bolsonaro não tem perto de si nenhum auxiliar desse tipo para apontar seus absurdos. O interlocutor nessa pandemia, o general Eduardo Pazuello, que ocupa o Ministério da Saúde, tem pleno conhecimento de todas as barbeiragens cometidas a mando do chefe. Embarca de bom grado, por subserviência, sem se importar com as consequências que seus atos poderão ter para a vida e a morte de milhões de brasileiros.

Cloroquina? Tudo bem. Criar dificuldades para a compra da Coronavac? Ok. Seja o que for, Pazuello topa.

A realidade atual do Brasil é mais dura que a de Sucupira. Temos um Odorico Paraguaçu na presidência, mas faz muita falta entre os militares que o cercam um Dirceu Borboleta, aquele tipo de auxiliar que pensa mais no povo que em se agarrar ao poder.

 

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