No caso do mercado financeiro, a queda nos principais índices de ações dos Estados Unidos, registrada recentemente, também foi sentida no Brasil, com queda no Ibovespa e alta no dólar. Estima-se que, caso uma eventual recessão fosse confirmada, contaminaria as bolsas ao redor do mundo.
“A atividade econômica brasileira também deve ser afetada negativamente (em caso de recessão nos Estados Unidos), uma vez que o país tem uma participação na corrente de comércio global, principalmente via exportação de commodities, que devem mostrar uma queda de preços nesse cenário”, observa Rostelato.
“Um cenário de desaceleração da atividade, juntamente a uma depreciação cambial, poderia limitar os potenciais cortes de juros neste ano”, afirma Rostelato.
O economista Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, cita a alta no preço do ovo como um exemplo prático de como o que acontece na economia americana pode impactar os brasileiros.
“O brasileiro está sentindo o efeito da economia americana nesse começo de ano com a questão do preço do ovo”, diz Cruz à BBC News Brasil.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado nesta quarta-feira (12/3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que o preço do ovo no Brasil teve alta de 15% em fevereiro.
Esse aumento, motivado por vários fatores, inclusive o calor intenso, ocorre em um momento em que as exportações vêm crescendo, principalmente para os Estados Unidos, onde a produção foi afetada por causa da gripe aviária.
“Como as galinhas de lá foram impactadas, e eles são o país mais rico, estão dispostos a pagar mais (pelo produto brasileiro), porque em dólar é mais barato para eles, e (isso) puxa (o preço no Brasil) para cima”, afirma Cruz. “É um exemplo de como nós importamos inflação dos outros países.”
Cruz observa que, nesse cenário de alta demanda dos Estados Unidos, produtores brasileiros poderiam pensar em expandir ou contratar mais funcionários.
Entretanto, caso a economia americana entrasse em recessão, o pensamento seria o inverso, de adiar investimentos, já que um dos principais países compradores não iria mais fazer grandes pedidos.
Esse é um exemplo de como, mesmo que indiretamente, uma recessão nos Estados Unidos poderia ser sentida no Brasil.
Os Estados Unidos registraram crescimento nos últimos anos, o mercado de trabalho está aquecido e outros dados continuam positivos. — Foto: Getty Images via BBC
Cruz ressalta ainda que muitas empresas brasileiras estão presentes nos Estados Unidos e poderiam ser afetadas em caso de recessão.
“Embraer tem unidade (nos Estados Unidos), Gerdau. Temos empresas do varejo brasileiro que vendem nos Estados Unidos, seja vestuário, seja alimentício”, enumera Cruz. “Todas elas podem sentir. Esses resultados podem travar alguma expansão aqui no Brasil também.”
A economia brasileira poderia ainda ser impactada de outras formas, em meio aos efeitos globais de uma eventual recessão americana. Caso a economia da China — que é o principal parceiro comercial brasileiro um dos alvos das novas tarifas de Trump — sofra, isso poderia ser sentido no Brasil.
“A tendência é a de que este seja um ano forte para o agro”, diz Cruz. “Mas, se os dois maiores mercados do mundo, China e Estados Unidos, crescerem menos, os preços internacionais desses produtos valem menos. E aí a gente acaba crescendo menos também.”
O risco de uma recessão nos Estados Unidos já foi levantado outras vezes em anos recentes, mas os temores anteriores não se materializaram. A última vez que a economia americana entrou em recessão foi em 2020, em meio à pandemia de covid-19.
Na ocasião, o governo reagiu com uma série de medidas de alívio, e o país se recuperou em poucos meses, fazendo com que aquela seja considerada a recessão mais curta enfrentada pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.
Cruz, no entanto, observa diferenças entre as discussões passadas e o momento atual.
“Nos últimos anos, sempre que havia discussão sobre recessão, a impressão era de que ‘a inflação está muito alta, a população vai consumir menos e isso vai provocar uma recessão'”, afirma.
“Agora, é ‘as medidas vão impactar os empresários, os empresários vão ter que fazer demissões, os custos vão ficar muito altos e isso vai provocar uma recessão’. Então, acho que o ângulo mudou.”