Cada vez que Jair Bolsonaro se comporta como se o problema da pandemia não fosse seu, essa relutância em admitir os fatos potencializa o problema. Num instante em que o país chora os mais de 100 mil mortos do coronavírus, o Planalto enviou aos aliados no Congresso um ranking que vincula a proliferação de “novos casos” e “novos óbitos” a governadores e prefeitos.

O levantamento do governo escalou as manchetes na noite desta segunda-feira. Simultaneamente, Bolsonaro foi às ruas de Brasília, uma cidade atormentada com mais de 120 mil diagnósticos de covid-19. Exibiu-se sem máscara. Exercitou seu populismo expondo nas redes sociais um vídeo em que aparece mastigando o churrasquinho de gato preparado por um ambulante.

Horas antes, o governador paulista João Doria, acomodado no topo do ranking dos culpados elaborado pelo Planalto, grudava no presidente o rótulo de “omisso”.

Se o Brasil fosse um país lógico, a pandemia teria estreitado inimizades políticas, em nome de uma ação coordenada contra o inimigo comum. Em vez disso, o vírus agravou a patologia que faz da política brasileira uma guerra de facções. A facção federal agarra-se à falácia segundo a qual o Supremo Tribunal Federal impediu Bolsonaro de agir. A facção federativa sustenta que a omissão do presidente faz crescer a pilha de cadáveres. Algo que não apaga as deficiências locais —de percalços administrativos a assaltos de verbas da saúde.

Se você pergunta a si mesmo que diabos, afinal, está acontecendo; se lamenta que o isolamento social mal feito retarda a volta dos negócios; se já foi torturado nas filas da Caixa para receber o vale-vírus de R$ 600; se perdeu o emprego, chamou por Deus e descobriu que Ele não é full time; se chorou a morte de um parente ou amigo infectado; se tem a impressão de que continua vivo porque não tem onde cair morto; se já passou por algum desses constrangimentos, você pertence a uma terceira facção: a das vítimas. Você integra a turma do salve-se quem puder.

Os fatos confirmam que o vírus prevaleceu no Brasil. Mas Bolsonaro parece avaliar que não se deve dar importância demais aos fatos. Age como se não achasse justo que a memória de uma nação se submeta aos fatos. É como se uma interrogação piscasse num letreiro de neon cada vez que o presidente tenta terceirizar suas culpas: Por que deveria assumir responsabilidade, ainda que parcial, pelos mais de 100 mil mortos apenas por respeito aos fatos, que não tiveram nenhuma consideração com a minha Presidência?

negacionismo não desenterra mortos. Mas salva a autoestima do capitão. Em cinco meses de crise sanitária, Bolsonaro brigou com governadores, fustigou Legislativo e Judiciário, produziu aglomerações, conspirou contra o isolamento social, carbonizou ministros com formação médica, trombeteou um remédio ineficaz, militarizou o Ministério da Saúde e brindou mortos e vivos com comentários célebres como o “E daí?”

Bolsonaro pode continuar fingindo que não tem nada a ver com a tragédia sanitária. Mas a fuga não serve senão para que o presidente passe à história da maior tragédia sanitária do século como personagem de uma farsa. Bolsonaro pode fugir dos fatos. Mas não escapará do espelho, cujo reflexo produz veredictos de uma franqueza brutal e irretocável.

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