O ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro completa três meses desempregado nesta sexta-feira. Isolado em seu apartamento duplex em Curitiba por conta da pandemia do coronavírus, ele aguarda o fim da quarentena profissional imposta a ele pela Comissão de Ética da Presidência enquanto ainda avalia as diversas propostas de trabalho que já recebeu de empresas e universidades.

O fato de não exercer uma função remunerada não significa, porém, que Moro não esteja trabalhando. Pelo contrário. Quem mantém contato com ele diz que seu “jeitão workaholic” está agora voltado a atender os mais de 300 pedidos de entrevista para jornalistas brasileiros e estrangeiros, convites para palestras e outros eventos virtuais já encaminhados ele.

De casa, Moro participa de pelo menos uma live quase todos os dias. Chegou a participar de dois compromissos virtuais numa mesma data.

Apesar disso, tem perdido relevância nas redes sociais, segundo levantamento da consultoria AP Exata divulgado pela coluna de Thaís Oyama no UOL. Do dia 1º de julho até a última terça-feira (21), “Sergio Moro” tinha sido mencionado no Twitter 61% vezes menos do que em todo mês de junho.

A menor visibilidade, entretanto, não parece abalá-lo. Moro mantém-se firme em seu discurso de combate à corrupção, agora turbinado com críticas tanto ao atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quanto ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Aos poucos, também opina sobre fake news, reformas econômicas e busca consolidar-se como um novo agente do debate político nacional.

“Ele quer mesmo participar do debate”, disse um interlocutor do ex-ministro ao UOL. “Moro acha que pode dar sua contribuição para o país.”

Se essa “contribuição” também virá em forma de candidatura em 2022, o ex-ministro desconversa. Apesar de seus opositores acreditarem que ele já está em campanha presidencial, ele diz estar preocupado em “reinventar-se”.

A quarentena profissional acaba em outubro. A partir daí, quem sabe, ele passará a dar consultorias, aulas ou palestras remuneradas. “Advogar ele já não pensa muito”, relatou o interlocutor. “Há esse movimento para negarem a ele o registro na OAB [Ordem dos Advogados do Brasil]. Ele não precisa entrar numa briga dessas.”

Independentemente da candidatura, Moro tem se esforçado para fidelizar seus apoiadores. No último dia 11, por exemplo, ele recebeu em casa integrantes de dois movimentos civis: o Curitiba Contra a Corrupção e o Patriotas do Brasil, de Maringá (PR), sua cidade natal.

“Ele ainda torce para que o governo vá bem”, diz apoiadora

Os dois grupos apoiam Moro desde que ele era o juiz dos processos da Lava Jato, defenderam seus projetos enquanto ele esteve no Ministério da Justiça e também sua posterior sua saída do governo.

Narli Resende, liderança do Curitiba Contra Corrupção, disse que o encontro com Moro durou cerca de uma hora. Ele falou sobre sua preocupação com o futuro da Lava Jato, que enfrenta o escrutínio da PGR (Procuradoria-Geral da República), e a crise econômica e social no país agravada pelo coronavírus. “Apesar de tudo, ele ainda torce para que o governo vá bem”, afirmou ela.

Ela também relatou ter encontrado um Moro sereno, sem rancores. Disse que o ex-ministro foi extremamente gentil com os visitantes e a acompanhou até a calçada na saída. “É um gentleman”, disse ela.

A visita foi articulada pelo empresário Fabio Aguayo, presidente da Abrabar (Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas). Ele é amigo de Moro e sua esposa, Rosângela. Ela, aliás, já advogou para a Abrabar em processos contra a Prefeitura de Curitiba há dois anos.

Empresários articulam movimento por candidatura em 2022

Aguayo criou um movimento de apoio ao ex-ministro depois de sua demissão, o Cidadão Democrático de Direito. Por meio de contatos com integrantes do movimento, o empresário viabilizou o encontro com Moro.

Além da visita, Aguayo também já providenciou a instalação de outdoors em Curitiba e região em favor do amigo, criou um perfil no Twitter para divulgar notícias sobre o ex-ministro e passou a defender abertamente sua candidatura ao Planalto em 2022. Moro, segundo ele, não endossa nada disso.

“Moro sabe do movimento, mas ele existe independentemente da vontade dele”, explicou, em conversa com o UOL. “Não sou só eu quem defende a candidatura. São dezenas de empresários, deputados, senadores, partidos que o procuram. Ele é a esperança de muitos.”

Aguayo disse que mais de 12 mil pessoas, de diferentes partes do país, já cadastraram-se num site criado por ele para uma mobilização pró-Moro.

“Essa reunião foi a primeira de muitas”, afirma o empresário. “Quero trazer gente de cada região do país para uma conversa com ele.”

Aguayo, neste mês, realizou um protesto polêmico em Curitiba em defesa dos donos de bares e restaurantes afetados pela pandemia. Ele gravou um vídeo junto a cruzes fincadas em frente a um hospital lotado de pacientes internados com covid-19 para chamar atenção para a vida de empresários que estavam sendo prejudicados pelo fechamento do comércio.

“Me exaltei mesmo”, disse ele. “Queria chamar atenção para nossa causa.”

Aguayo disse que sua opinião sobre a pandemia diverge da de Moro. “Ele defende o isolamento social. Eu penso diferente”, disse.

UOL procurou Moro para ouvi-lo sobre sua nova rotina, planos e sua relação com Aguayo. A assessoria do ex-ministro negou o pedido de entrevista por respeitar a fila de solicitações semelhantes pendentes.

A assessoria confirmou, porém, que Moro que conhece Fabio Aguayo. Informou ainda que eventos dos quais o ex-ministro tem participado, incluindo o encontro promovido pelo empresário, não têm fins eleitoreiros.

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