O Jornal Nacional apurou com exclusividade que um ato do presidente Jair Bolsonaro põe em xeque a versão dele mesmo para o que disse na reunião ministerial. O presidente alega que as queixas que fez, ameaçando até demitir ministro, se referiam à segurança dele, da família e de amigos no Rio de Janeiro e à tentativa frustrada de substituir pessoas do setor.

O presidente mesmo disse que a segurança dele é responsabilidade do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Mas uma apuração do JN mostra que, 28 dias antes da reunião, o presidente tinha promovido o responsável pela segurança, em vez de demiti-lo. E ainda promoveu, para o lugar dele, o número dois da diretoria.

E, mesmo no Rio de Janeiro, houve troca na chefia do escritório do GSI menos de dois meses antes da reunião ministerial.

O general André Laranja Sá Correa é o comandante da Oitava Brigada de Infantaria Motorizada do Exército, localizada em Pelotas (RS), desde o dia 31 de março deste ano. É uma posição importante na estrutura do Exército, já ocupada, entre outros, pelo atual ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos.

Mas, até o dia em que foi promovido, o general Sá Correa era diretor do Departamento de Segurança Presidencial, cargo que ocupava desde o começo do ano passado. O Departamento de Segurança Presidencial faz parte da Secretaria de Segurança e Coordenação Presidencial do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI). Entre as obrigações deste departamento, estabelecidas em decreto, estão:

  • zelar pela segurança pessoal do presidente da República, do vice-presidente da República e de seus familiares;
  • zelar pela segurança dos palácios presidenciais e das residências do presidente da República e do vice-presidente da República;
  • estabelecer e manter os escritórios de representação como bases operacionais avançadas para a garantia da segurança do presidente da República, do vice-presidente da República e de seus familiares.

Ou seja, o general Sá Correa, subordinado ao ministro do GSI, Augusto Heleno, era o diretor que cuidava da segurança do presidente.

A promoção de Sá Correia para general-de-brigada e a nomeação para o comando da brigada no Rio Grande do Sul foi publicada no dia 26 de março e entrou em vigor em 31 de março. Por causa dessa promoção, ele deixou no mesmo dia a direção da Segurança Presidencial, conforme decreto assinado pelo presidente Bolsonaro.

O até então diretor-adjunto, Gustavo Suarez, assumiu o posto. Pela lei que trata da promoção de oficiais das Forças Armadas, as promoções de oficiais-generais que ocorrem no dia 31 de março são feitas por escolha do presidente da República. “Dentre os mais credenciados para o desempenho dos altos cargos de comando, chefia ou direção.”

A mudança no comando do departamento que trata diretamente da segurança pessoal do presidente contradiz a versão apresentada pelo Planalto para a declaração de Jair Bolsonaro na reunião do último dia 22 de abril. A fala de Bolsonaro está no centro da investigação do Supremo Tribunal Federal contra o presidente da República e o ex-ministro Sergio Moro.

A reunião foi gravada em vídeo, e o material está sendo periciado pela Polícia Federal. Em petição enviada pela Advocacia-Geral da União ao STF, a frase de Bolsonaro foi transcrita pela Advocacia Geral da União, que é responsável pela defesa do presidente. Bolsonaro disse:

“Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f. minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura. Vai trocar. Se não puder trocar, troca o chefe dele. Não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira.”

Sobre a expressão “segurança nossa”, a AGU argumentou que “importa lembrar que a segurança presidencial é realizada pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República”. E que nesta parte da reunião, “em nenhum momento, o presidente da República menciona ou refere-se, direta ou indiretamente, a ‘superintendente’, ‘diretor-geral’ ou ‘Polícia Federal'”.

Embora diga, agora, que na reunião do dia 22 não se referia à Superintendência da Polícia Federal no Rio, e sim à dificuldade para trocar sua segurança, Bolsonaro já tinha trocado o diretor responsável pela equipe 28 dias antes e sem nenhuma dificuldade. Não para puni-lo, e sim para promovê-lo. E colocou no lugar o número dois da Diretoria da Segurança Presidencial. Se a queixa de Bolonaro era quanto a sua segurança, de seus familiares e amigos, essas mudanças não fazem sentido.

Houve ainda uma terceira mudança recente de cargos na segurança do presidente, mais um sinal de que não havia dificuldade para trocar ninguém desta equipe.

Foi em um posto mais baixo na hierarquia, no escritório do Rio do GSI. Em 28 fevereiro, menos de dois meses antes da reunião do dia 22 de abril, o chefe do escritório, o coronel Luiz Fernando Cerqueira, foi substituído pelo tenente coronel Rodrigo Garcia Otto.

Este escritório é uma extensão de Brasília, de onde é comandada a segurança do presidente. É uma estrutura pequena, que funciona em uma sala. As informações apuradas ali são repassadas a Brasília, onde as decisões são tomadas.

O Planalto informou que não comentará o assunto. O Gabinete de Segurança Institucional não respondeu até a publicação desta reportagem.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

6 + quinze =