A demissão de Sergio Moro da Pasta da Justiça acabou revelando uma faceta pouco louvável do presidente Jair Bolsonaro: a irrelevância que ele confere aos seus ministros. Ele trata os auxiliares como robôs encarregados de reproduzir suas ordens, seus conceitos de gestão, ou como peças secundárias na estrutura da qual é o regente. Fia-se na evidência de que o eleito foi ele, que foi ele que se expôs de peito aberto em manifestações para angariar votos e saiu da campanha com cicatrizes doloridas, resultantes da facada que sofreu num evento em Juiz de Fora, Minas Gerais. A agressão simbolizou, na visão de Bolsonaro, o alto preço que ele pagou para defender o Brasil. Pelo menos é esta a narrativa que ele constrói e que surte efeito junto aos robôs digitais, que lhe fazem coro nas redes sociais – templo predileto do capitão para se expressar ou para complicar a vida de inimigos concretos e imaginários.

Além da agressão física, estúpida e condenável, de que ele foi vítima, têm pesado nos seus ombros as críticas feitas por adversários políticos que discordam de ideologias preconizadas por Bolsonaro e que são esdrúxulas no primado democrático vigente no país após 21 anos de ditadura militar. As críticas partem, também, de jornalistas, de economistas, de artistas, que têm todo o direito de não concordar com ideias esposadas pelo presidente da República. Este é um problema cotidiano na vida do mandatário pela circunstância de que ele não está acostumado ao pluralismo nem tem embasamento intelectual para refutar teses que estão mais próximas da verdade ou da racionalidade. Bolsonaro é um projeto de ditador – e a sociedade brasileira cada vez mais tem amadurecido no sentido de repelir surtos autoritários e candidatos a caudilhos.

O comportamento nada republicano do presidente da República em relação a ministros que em tese são cooperadores dele na árdua missão de governar um país com as dimensões do Brasil está refletido na constatação de que em apenas oito dias o governo que aí está perdeu dois quadros que vinham sendo importantes em metas definidas como prioritárias. O da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, embora sem muito brilhantismo, vinha se portando alinhado com a Ciência no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, que diariamente faz vítimas em escala preocupante no país. Mandetta estava, portanto, em boa companhia. Mas Bolsonaro entendeu de desautorizá-lo publicamente nas iniciativas recomendadas, inclusive dando exemplos de desobediência quanto ao cumprimento de medidas de isolamento social destinadas a evitar a disseminação ou proliferação do contágio da covid-19. O pescoço do ministro foi colocado a prêmio e logo ele foi destituído, depois de suportar uma carga desgastante de sabotagem estimulada pelo próprio presidente da República.

Em relação ao ministro Sergio Moro, descontados eventuais sintomas de deslumbramento do ex-juiz com o poder e extrapolamento em algumas atribuições, a importância de seu papel é inquestionável desde quando foi o executor da força-tarefa da Operação Lava Jato, a mais bem-sucedida blitz de combate à corrupção centrada no desvio e no roubo de recursos públicos. A Lava Jato inspirou-se na operação Mãos Limpas, levada a efeito na Itália, mas se pautou por uma sistemática tão eficiente que logrou superar a congênere em termos de referência e de resultados. Basta contabilizar o montante de dinheiro que foi devolvido aos cofres públicos para se ter uma ideia do êxito da empreitada brasileira. Mas Bolsonaro começou a golpear o seu ministro da Justiça e dificultar a colaboração com agentes da Lei empenhados em investigações e processos por vários Estados.

A atitude de Bolsonaro causou estranheza quando se leva em consideração que o combate à corrupção constituiu sua prioridade máxima na campanha eleitoral. Ele se elegeu na cauda do antipetismo, na onda de desmoralização de quadros do Partido dos Trabalhadores que foram responsáveis pela montagem de uma organização especializada em saquear os cofres públicos e em desmontar estatais que eram patrimônio nacional a exemplo da Petrobras. O indiciamento e, posteriormente, a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se projetara mundialmente como operário que ascendeu ao poder no Brasil, foram o ápice da Lava Jato. Ainda assim, Bolsonaro não se acomodou e retomou a sanha punitiva contra um ministro que virara, de uma hora para outra, concorrente político potencial, pela visibilidade que alcançara em todo o mundo. Era hora de fazer Moro cair. Sergio Moro caiu.

A próxima vítima deverá ser o ministro da Economia, Paulo Guedes. A ele caberia também papel importantíssimo na pandemia do coronavírus, com medidas para aquecer atividades produtivas que estão paralisadas e promover a circulação de dinheiro. Mas Paulo Guedes não é ouvido nem cheirado para nada. Vagueia pelo Planalto como um zumbi, sem poder nem prestígio. Se permanecer, isto se dará devido ao temperamento que exibe e que não o aponta como “brigão”. Moro e Mandetta saíram porque são de outro tecido, de outra extração. Paulo Guedes, se tivesse o mínimo de dignidade, deveria ser o próximo a desocupar a Esplanada dos Ministérios em Brasília. A pergunta é: terá ele tal dignidade?

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