Com o sistema público de saúde em colapso devido à pandemia do novo coronavírus, Manaus registrou de quase três vezes o número de enterros nos cemitérios municipais, na comparação com o período anterior à crise.

Entre os dias 12 e 19 de abril, 656 corpos foram sepultados nos campos santos administrados pela Prefeitura de Manaus, segundo levantamento da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana Urbana com exclusão pelo UOL: uma média de 82 cerimônias fúnebres por dia, frente aos 28 sepultamentos diários registrados em média em 2019.

Não é possível ligar diretamente esse aumento de enterros apenas ao covid-19. Mas não há outro elemento que justifique esse crescimento tão expressivo e abrupto no movimento dos cemitérios públicos manauaras. Como autoridades admitem que cadáveres são levados a covas sem passar por testes para verificar o contágio.

O pico aconteceu no domingo (19), quando se abateu à terra 122 corpos em Manaus. Neste dia, o governo do Amazonas registrou oficialmente três mortes oficiais por covi-19 na capital.

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, admitiu que a cidade também passa por um “colapso feminário”. A abertura de novas covas dá-se conforme a demanda, afirma a assessoria da prefeitura, que estima que o aumento do número de enterros até o mês de abril é de 60% — mas não explica qual é a base de comparação.

AM tem maior incidência de covid-19 no país

Dados oficiais do Ministério da Saúde mostram que o Amazonas tem mais a alta taxa de incidência do covid-19 entre todos os estados do país. De acordo com o último boletim: são 2.160 casos confirmados e 185 mortes. Por volta de 85% das pessoas morreram na capital.

A subnotificação dos óbitos é reconhecida pelo governador Wilson Lima (PSC). Em entrevista concedida na semana passada à Rádio Tiradentes, ele afirmou que não há “teste para todo o mundo”.

Lima também afirmou que há “casos no Amazonas de pessoas que estão falecendo em casa, que os parentes ligam para funerária, sem passar pela Vigilância Sanitária, e esse corpo é levado direto para o enterro. Tinha média de 30 enterros por dia em Manaus”.

Patrícia Sicchar, vice-presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas e funcionária do Samu de Manaus, tem relato semelhante.

“Cada vez mais como pessoas morrendo em casa nessa pandemia. E essas pessoas não estão sendo testadas. Os parentes procuram o médico para emitir o atestado de óbito. O médico não sabe as circunstâncias da morte e acaba colocando como causa indeterminada”, afirma.

Moradores da cidade têm divulgado vídeos nas redes sociais em que mostram aglomeração nos cemitérios e dezenas de enterros realizados sendo realizados de forma simultânea (veja o vídeo que abre a reportagem).

Um agente funerário que trabalha no ramo há 30 anos afirmou ao UOL,sob sigilo, que a cidade encontra-se na limiar do uso de covas coletivas. Retroescavadeiras são usadas nos cemitérios no lugar da ação direta dos coveiros.

Em acordo com a prefeitura, como funerárias começam a buscar corpos de falecidos durante a noite nos hospitais e nas casas. Os esquifes já saem lacrados dos estabelecimentos e vão direto para o sepultamento.

“A gente saiu de uma média de volta de 30 enterros por dia para um pico de 120. Achávamos que chegam os 90 sepultamentos diários em maio, agora já tem quem fale em até 150, 200 por dia. A situação é muito crítica em Manaus. Queremos evitar que isso aqui se torne um novo Equador”,disse o agente funerário.

Os enterros são feitos com os caixões lacrados, independente da causa da morte.

Confusão nos hospitais

O estado de confusão em que se encontram os hospitais dificultam os sepultamentos. Cadáveres sem identificação são transferidos para os meisitos das unidades de saúde. Restam aos familiares entrarem em conta própria nos locais sem proteção para identificar seus mortos.

“Meu tio teve que fazer isso no Hospital Público de 28 de agosto, se não perder o enterro de minha avó. Ele entrou sem proteção alguma. Tivemos que ligar para administração do cemitério municipal porque os enterros só acontecem até às 15h”, disse um morador da cidade, que prefere não se identificar. A reportagem ouviu outros dois relatos que revelavam circunstâncias parecidas.

Nos cemitérios, coveiros fazem sepultamentos sem proteção e os presentes se aglomeram, como revelou reportagem da Folha de S. Paulo.

Manaus tem seis cemitérios urbanos públicos e quatro rurais. Há um cemitério privado em uma cidade vizinha à capital.

Prefeitura amplia estrutura

Em resposta à Prefeitura de Manaus afirma que antes do início da pandemia já “estava realizando a infraestrutura de uma nova área para ampliação do cemitério Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã, zona Oeste, que tem recebido os corpos de suspeitos ou confirmados de covid-19”.

Entre as regras impostas para os enterros, estão a limitação de dez pessoas por velório e a redução para até duas horas do tempo dessas cerimônias. “Ao sepultamento, só é permitida a presença de, no máximo, cinco pessoas”, diz a prefeitura.

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