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João Pessoa, 20 de Agosto de 2019.



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Publicado em 14/03/2019 14h43

'Gostaria que o presidente me recebesse' , diz viúva de Anderson, motorista de Marielle

Este questionamento foi feito por Agatha Arnaus, 29, após a prisão de dois suspeitos pelo assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) e do motorista do carro em que ela estava, Anderson Gomes.

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Imagem da internet

"Muita gente já dizia que ele era famoso por ser letal. Por que estava solto, morando em mansão, viajando pra Angra, ostentando uma vida de luxos, portando armamentos, e meu marido foi morto pelas mãos dele? Para mim essa é uma grande questão."

Este questionamento foi feito por Agatha Arnaus, 29, após a prisão de dois suspeitos pelo assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) e do motorista do carro em que ela estava, Anderson Gomes. Agatha é a viúva de Anderson.

"A quantidade de armas, munições e explosivos apreendida pela polícia hoje é algo inimaginável. Se já era conhecido que eles estavam participando disso, por que não estão presos há mais tempo? Como esposa do Anderson eu tenho esse sentimento [de frustração]."

Os presos a que Agatha se refere são o policial reformado Ronnie Lessa (o morador de mansão citado por ela), 48, e o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, 46. Segundo o Ministério Público, Lessa é apontado como o autor dos disparos que matou os dois. Já Queiroz estaria conduzindo o carro usado no crime, de acordo com as investigações.

A entrevista com Agatha aconteceu em duas etapas. A primeira foi no final da semana passada. A segunda, na tarde de anteontem, após a prisão dos dois suspeitos.

Agatha se desdobra entre o trabalho no Ministério Público do Rio, cuidados especiais com o filho de três anos e a casa onde morava na companhia de Anderson, na zona norte do Rio.

Conta com a ajuda da mãe e da irmã para cuidar do pequeno Arthur. Os olhos dela se enchem de lágrimas sempre que se lembra de Anderson. E afirma: "A corrupção matou o meu marido".

Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista de Agatha para o UOL.

Vizinhos e investigados

"Acho que as promotoras estão trabalhando isso com bastante cautela. E estão corretas", comenta Agatha, sobre o fato de um dos detidos morar no mesmo condomínio que o presidente Jair Bolsonaro no Rio. É como elas disseram: "A gente não tem culpa pelos atos dos nossos vizinhos."

"Mas claro que não são simples vizinhos. Eles [os Bolsonaros] homenagearam alguns investigados. Não acho que seja uma linha que deva ser descartada, tudo deve ser rigorosamente apurado."

 

Ricardo Borges/UOL
Ultima mensagem de Anderson trocada com a mulher antes de ser morto junto com MarielleImagem: Ricardo Borges/UOL

"A pessoa tirou o celular do bolso do meu marido e fez as fotos"

O Anderson tinha dois celulares, que ficaram meses com a polícia. Não tive acesso a eles durante um tempo. Um dia me chamaram para buscá-los. Quando eu liguei, vi que aquelas primeiras fotos que circularam no WhatsApp foram tiradas com um dos celulares dele. Estavam todas lá, dos dois corpos. Tinha uma horrível da Marielle.

A pessoa tirou o celular do bolso do meu marido, fez as fotos de lá para repassar do celular do Anderson. E espalhou pela internet. Acho que queriam publicar aquilo sem mostrar quem foi. Aí usaram o celular do motorista morto. Alguns dos meus parentes souberam antes de mim por causa dessas fotos.

A polícia sequer apagou essas imagens. Imagina se a mãe do Anderson retira esse celular?

"Parece que vivo a vida de outra pessoa"

Foi o pior ano da minha vida. Nunca pensei que me tornaria viúva aos 28 anos, com um filho pequeno no quarto e sem saber o que fazer.

A partir de 14 de março, parece que estou vivendo outra vida. Que sou outra pessoa e estou vivendo a vida de outra pessoa. A gente casou, teve um filho, veio morar aqui e fazendo as coisas do Arthur os dois sozinhos. [ela começa a chorar] E, depois, eu estava precisando de gente para cuidar do Arthur, de gente para me ajudar. Isso me incomoda. Era eu e ele e fica sempre essa falta.

 

Ricardo Borges/UOL
Acho que eu fui a última a saber dos assassinatos. Eu estava dormindo, diz AgathaImagem: Ricardo Borges/UOL

Filho na UTI entre a vida e a morte

Não tem como dizer que foi um ano completamente ruim porque a gente tem filho pequeno e foi um ano de conquistas para ele. A falta que eu sinto do Anderson é muito maior em relação ao Arthur. Porque ele era um paizão, e louco pelo Arthur. É uma criança que demanda mais cuidados pelas condições que ele nasceu, com má formação e prematuro. É uma criança que já passou por quatro cirurgias. A última foi em setembro. Foi a pior. Eu achei que ia perder o Arthur. Eu achei que era um ano em que Deus estava me testando, pois não sabia o que ele queria de mim.

Quando levei ele ao hospital foi uma das primeiras vezes que eu me dei conta de que estava sozinha. Porque o Anderson sempre estava comigo. Sempre. E não tinha ninguém comigo. Aí a ficha caiu muito para mim. Foi pesado. [conta isso com voz embargada e chorando]

O Arthur ficou entre a vida e a morte. Ficou na UTI e teve três quedas de respiração. Cheguei a ligar para o meu pai e dizer: 'estou fazendo tudo o que eu posso, mas acho que não vai dar'. Foi a primeira vez que pensei que ia perder meu filho.

Senti muita falta do Anderson porque ele sempre esteve comigo desde a gravidez. Nos piores momentos ele sempre esteve comigo.

Após uma cirurgia de horas que não estava dando muito certo, o Arthur estava muito inchado, entre a vida e a morte. Iam tirar sangue dele e só saía um líquido amarelo. Ele começou a inchar tanto que a mão dele começou a rachar.

Mas aí aconteceu algo quase que miraculoso. Minha tia organizou um grupo de oração e, no dia seguinte, ele estava desinchado, completamente diferente. Falei para a enfermeira: 'eu achei que ele não ia resistir'. E ela disse: 'nós também. Já vi criança que briga pela vida, mas igual ao seu filho eu nunca vi'.

"Eu fui a última a saber"

Acho que eu fui a última a saber dos assassinatos. Eu estava dormindo. Ele tinha falado comigo umas 20h e pouco. Disse: 'está terminando aqui e eu, enfim, vou para casa descansar'. Depois eu achei tão estranho porque ele nunca tinha usado essas palavras. Tenho o áudio até hoje.

Tínhamos feito alguns exames no Arthur e, no dia seguinte [ao dos assassinatos], havia uma consulta com o endocrinologista. Nós íamos levar os resultados dos exames no dia seguinte.

Fui acordada à meia-noite pela minha irmã, a Julia. Abri a porta achando que ia ver a Julia e o Anderson. Ela só disse: 'Agatha, você vai ter que ser forte. O Anderson morreu'.A primeira coisa que eu pensei foi que ele tinha batido o carro. Não pensei em nada direcionado à Marielle em nenhum momento. Aqui em casa a gente estava tão focado no Arthur e isso tomava tanto o nosso tempo que eu não sabia de nada da Marielle. O que eu sabia era o que ele me falava, que ela recebia todo o mundo, que chegava um monte de gente pedindo coisa, que chegava até gente cheirando mal e ela atendia e abraçava.

 

Ricardo Borges/Folhapress - 11.mai.2018
Reprodução simulada do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson GomesImagem: Ricardo Borges/Folhapress - 11.mai.2018

"É mentira que ninguém é insubstituível"

Sabe aquele ditado que dizem que ninguém é insubstituível? É mentira. Ele era insubstituível. Era uma das poucas pessoas que você gostava até dos defeitos. Ele era... [chorando] pura tranquilidade. Uma pessoa calma, solícita. Não conheço mais ninguém igual a ele. E não sei se vou conhecer. Espero que, se existam próximas vidas, que a gente se encontre. Porque foi pouquíssimo tempo para mim. [aos prantos]

As pessoas falam que nenhuma vida vale mais que a outra. Mas não é assim. É claro que Marielle, por ser uma figura pública e política, e por todo o movimento que ela fazia, claro que vão falar mais dela. A gente sabe que aqueles tiros foram para ela. Não tenho ressentimentos sobre isso.

"Quero ver todos presos"

Quem fez isso não tem noção da pessoa que me tirou e que tirou da vida do meu filho.

Eu acho que não sinto nada em relação a quem fez e quem mandou. [voz trêmula] Em relação a qualquer pessoa que esteja envolvida eu não sinto nada. Quero que se resolva. Quero saber sobre cada um que esteja envolvido. Quero ver todos presos.

Nada do que eu sinta em relação a essas pessoas vai atacá-las. O que eu sinto não vai fazer mal para a pessoa que matou o meu marido, vai fazer mal só para mim. Minha vida já é complexa demais para eu ficar me preocupando com isso ou desejando algo de ruim para pessoas.

Não tem um minuto que eu não pense em quem matou ou quem mandou matar. Não acaba mudando o que aconteceu ou a minha vida. Você vai vivendo um dia depois do outro e vai amenizando. Mas, às vezes, vem como um estalo essa questão que ainda não está resolvida.

Mesmo que não mude nada, você precisa saber para encerrar aquele capítulo. Por enquanto o que eu tenho a contar para o meu filho é: 'Seu pai estava trabalhando, não sei o porquê. Foi porque ele estava com a vereadora'.Mas eu acredito nas investigações do Ministério Público, acredito que vai ser resolvido.

"Claro que não foi um crime comum"

No MP chamaram a gente para reuniões e nos tranquilizar. Acho que é um papel porque a gente também está angustiado. Claro que não foi um crime comum, quem fez já estava planejando há um tempo e com alguma expertise. São agentes públicos, que o próprio estado pagou para treinar e ensinar.

A única coisa que me deixa impressionada é como temos conhecimento sobre certo chefe de milícia ter tantas mortes nas costas e ele não estar preso. Como pode isso? Parece uma banda de rock, todo mundo sabe quem participa e eles ficam lá. A polícia nem prende.Não quero que o governador eleito Wilson Witzel me ligue. Que importância eu tenho? Fico em dúvida se isso faria alguma diferença. Eu quero a resposta. Quero que prendam. Eu prefiro que os assassinatos sejam solucionados e que o governo se empenhe para que isso aconteça. Que isso aconteça para todas as famílias que perderam seus filhos, maridos e parentes também.

 

Ricardo Borges/UOL
Agatha Arnaus em sua casaImagem: Ricardo Borges/UOL

"Preferia que a Anistia Internacional nem tivesse vindo falar comigo"

Eu não participo de nada da Anistia. Houve uma reunião e eu nem soube, soube por uma repórter que me ligou. A Anistia tinha dito que eu estava, mas eu desmenti no ar, na televisão.

Eles basicamente me falaram que iam focar na Marielle porque ela era uma representante de direitos humanos e o papel deles era "macro". Que não era para eu ficar chateada, mas que era isso.

Beleza, entendo isso, não sou nenhuma tapada. Sei que Marielle tinha uma representatividade maior. Mas, se ela estivesse viva e envolvida nisso, com certeza ela estaria focada no meu marido também.

Eles me deram um punhado de adesivos, que inclusive tenho guardados, com a cara da Marielle e escrito só Marielle, um livro e foi isso. Melhor nem ter vindo falar comigo. Eu preferiria.

A verdade é que milhões de pessoas morrem, ainda mais no Rio de Janeiro. Mas ele - não sei se esse é o termo correto - 'deu a sorte' de estar com a Marielle. Porque senão seria mais um como tantos outros que eu vejo.

"Foi a corrupção que matou o meu marido"

É tanta tramoia em todos os setores... E parece que uma coisa vem ligada a outra, e a outra, e a outra. Há um tempo eu estava pensando: o Anderson, antes de ficar desempregado, ele trabalhava na Comperj [Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, que foi alvo de congelamento de contratos devido à Operação Lava Jato].

Foi naquela época quando teve roubalheira também, a Comperj parou de funcionar, mandou um bando de gente embora - inclusive o meu marido que, se não tivesse tido roubalheira, estaria ainda trabalhando lá.

As coisas acontecem como devem acontecer. Mas são tantas coisas ligadas, tanta roubalheira desde o início, que é impressionante.

Foi a corrupção que matou o Anderson. Se você fizer o link para chegar nisso é fácil. Ele trabalhava lá, a empresa perdeu contrato. Foi aí que meu marido ficou desempregado e foi para o Uber, foi fazer bico de motorista para sobreviver. E aí a gente fala de emprego informal e outros assuntos do Brasil. São coisas que a gente vive agora.

 

Reprodução
O deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) quebra uma placa com o nome de Marielle Franco; ele foi eleito o deputado mais votado da Alerj e pendurou em seu gabinete um pedaço da placa quebradaImagem: Reprodução

Quebrar a placa de Marielle foi de "um nível que beira a barbárie"

Quanto a quem quebrou a placa de Marielle [Rodrigo Amorim, deputado federal pelo PSL], a placa foi feita para cobrar o andamento das investigações. Quando uma pessoa faz isso [quebrar a placa], estamos num nível que beira a barbárie. A pessoa faz isso, acha que está certo, prega na sala dele como memória por ter quebrado todo um pedido da população por investigação por pessoas que foram assassinadas.

Mesmo que ele fosse qualquer outra pessoa e não fosse um parlamentar, é feio para qualquer pessoa. Pior ainda para quem tem que dar o exemplo por ter essa representatividade.

"Gostaria que o presidente me recebesse"

O presidente eleito tem o dever moral de nos apresentar uma resposta. Como já dissemos eu e a família de Marielle, não é qualquer resposta. Não é porque se completou um ano que ele ou os investigadores têm que apresentar qualquer pessoa como autora. Não é assim que as coisas funcionam.

Marielle também era uma política, uma colega de trabalho do presidente. Infelizmente, ninguém está livre disso, ainda mais morando no Rio. Vide o atentado contra a deputada Martha Rocha.

Quero que o nosso presidente cumpra as promessas de combate à corrupção. O que aconteceu foi um desdobramento de inúmeros erros anteriores, não foi só quem atirou naquele dia. Foi quem mandou, quem corrompeu, quem fez com que essa bola de neve fosse crescendo: meu marido desempregado, trabalhando num subemprego naquele dia, Marielle sem motorista oficial. Uma sequência de erros. Bolsonaro tem poder e, de repente, pode fazer alguma coisa relevante sobre o assunto.

Eu gostaria que o presidente me recebesse, juntamente à família de Marielle, para se compromissar na resolução dos assassinatos, tirar uma fotografia conosco e postar no seu Twitter, já que ele usa a rede social para divulgar seus atos. Quem sabe ele não consegue um tempo para me receber, receber a família da Marielle e postar a foto? Assim ratifica o interesse dele com a investigação, já que ele disse que era apenas mais uma morte no Rio de Janeiro, que não havia diferença em relação a outros crimes.

Isso é ótimo, espero que todas as investigações tenham o empenho dessa também. Que se resolvam, assim como tenho certeza de que essa vai se resolver. E aí acho lindo o que ele disse, porque é isso que a gente quer: não é para ser tratado de modo especial, quero que todos os assassinatos tenham casos solucionados.

Fonte: Da internet
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