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Publicado em 19/03/2017 18h20

Veja o 'vilão' da cozinha apontado omo principal causa do surto de obesidade

A cada dia que passa, não importa o país em que vivemos, todos temos uma dieta parecida - rica em calorias e pobre em nutrientes.

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Uma colher de chá de óleo, medida com exatidão. É assim que o professor Tim Benton se lembra de sua mãe preparando a fritura dos alimentos.

 Durante a sua infância, nos anos 1960, o óleo de cozinha ainda era um produto precioso, utilizado com parcimônia.

 Hoje em dia, no entanto, ele é tão abundante e barato que o usamos sem restrições em tudo: desde o tempero da salada às frituras.
Isso não se limita à culinária: o óleo é também um ingrediente comum da maior parte dos produtos que compramos no supermercado.

 Na verdade, o óleo vegetal, especialmente o de soja e o de palma (ou dendê), está entre os oito ingredientes - os outros sendo trigo, arroz, milho, açúcar, cevada e batata - que fornecem 85% das calorias consumidas mundialmente.

 A cada dia que passa, não importa o país em que vivemos, todos temos uma dieta parecida - rica em calorias e pobre em nutrientes.

 Calorias muito baratas

 É um processo que o professor Benton, pesquisador da Universidade de Leeds especializado em segurança alimentar e sustentabilidade, relaciona diretamente ao comércio global.

 A produção de óleos vegetais e as culturas oleaginosas cresceram consideravelmente nas últimas três décadas.

 Esse crescimento foi incentivado por uma combinação de acordos comerciais, que tornaram mais barato e fácil exportar e importar óleo, e políticas governamentais. Por exemplo, os subsídios em países como Malásia e Indonésia, destinados a aumentar a produção para exportação, ajudaram a baixar o preço do óleo vegetal.

 "Competir em um mercado global exige uma escala de produção altamente eficiente e barata. Agora nós temos um sistema alimentar construído sobre calorias incrivelmente baratas", diz o professor Benton.

 Em muitos casos, esse comércio de alimentos ajudou a reduzir a fome ao dar "aos mais pobres acesso a calorias baratas", destaca.

 Mas ele afirma que isso significa que mais pessoas estão consumindo produtos importados menos saudáveis do que os disponíveis a nível local - e isso também teria ajudado a nos tornar mais gordos.

 Estamos mais gordos

 Mais de 50 por cento da população mundial não têm um "peso saudável", de acordo com uma recente pesquisa coordenada pelo professor Benton. E a obesidade em todo o mundo mais do que dobrou desde 1980.

 "Os mais pobres ainda lutam para consumir as calorias necessárias e estão abaixo do peso. Nos países ricos, porém, a pobreza geralmente não impede que as pessoas deixem de ingerir calorias, mas faz com que parem de ter uma dieta rica em nutrientes", diz a pesquisa.

 A professora Corinna Hawkes, diretora do Centro de Política Alimentar da Universidade de Londres, diz que o grande aumento das fontes de calorias desde o início da era da globalização vem do cultivo de oleaginosas.

 "Houve um súbito e forte aumento da oferta de óleos de soja e palma e, a meu ver, isso está diretamente relacionado com as políticas que tornaram a sua comercialização mais fácil", explica.

 As oleaginosas estão atualmente entre as sementes mais vendidas e a maior parte dos alimentos processados contém óleos de soja ou de palma, porque isso ajuda a aumentar o seu prazo de validade nas prateleiras dos supermercados, acrescenta a professora.

 
"Como se tornou muito mais fácil e barato para a indústria de alimento importá-los, não houve um desestímulo ao uso desses óleos", continua.

 Uma pequena quantidade de gordura é parte essencial de uma dieta saudável e balanceada. Mas gorduras são ricas em calorias, por isso consumi-las em grande quantidade pode aumentar o risco de sobrepeso ou obesidade. Gorduras saturadas ou trans também são associadas a doenças cardíacas.

 A professora Hawkes diz que o baixo custo e a grande oferta de óleo levaram a mudanças de hábitos culinários de alguns países. Na China, por exemplo, a comida é preparada em grandes quantidades de óleo, assim como no Brasil.

 Mas além do aumento do comércio de oleaginosas, acrescenta a professora, é importante notar que a venda de frutas e vegetais também aumentou e isso significa que muitas pessoas viram a sua dieta melhorar.

 Desequilíbrio

 A professora Hawkes chama atenção para um outro fator, que ela chama de "a questão da quinoa". A crescente procura por este "superalimento", cultivado há milênios nos Andes - os incas o chamavam de "grão dos deuses", pois era a sua principal fonte de proteína -, tem feito seu preço disparar e tirado ele das prateleiras de países onde a quinoa se originou, como Peru, Bolívia, Equador e Colômbia.

 A questão que surge está no centro da controvérsia que envolve a globalização: o aumento do consumo de quinoa beneficiou de maneira desproporcional populações que já tinham um cardápio privilegiado.

 Ou seja, enquanto quem tem acesso a informações sobre nutrição e saúde estaria se tornando mais saudável graças ao comércio globalizado, pessoas que não possuem esse conhecimento estariam vendo a qualidade da sua dieta piorar.

'Globalização social'

 No entanto, isso é desmentido por um recente estudo da London School of Economics (LSE), que analisou 26 países entre 1989 e 2005, período de grande expansão da globalização.

 A pesquisa concluiu que a chamada "globalização social" - as mudanças na maneira como trabalhamos e vivemos - é o que está nos tornando gordos, e não a maior oferta de alimentos baratos e mais calóricos.

 A culpa pela obesidade deve ser atribuída ao fato de que agora estamos cada vez mais sujeitos a trabalhar, a comprar e a socializar sem precisar se movimentar, diz a autora do estudo, Dr. Joan Costa-Font.

 Ela diz que o consumo continua o mesmo dos tempos pré-globalização, em que as necessidades eram outras, quando "as pessoas tinham que andar até os lugares e não havia tantas atividades que nos faziam poupar energia como hoje".

 "Os indivíduos tinham contatos sociais mais próximos, cozinhavam e gastavam mais tempo com as tarefas domésticas diárias", analisa.

 Costa-Font diz que as pessoas têm novas necessidades e por isso, por se movimentarem menos, deveriam comer menos - ou se movimentar mais.

 Ele cita os Estados Unidos como exemplo. Embora os índices de obesidade no país cheguem a quase 35 % da população, este percentual vem se mantendo praticamente o mesmo na última década.

 "Esta é uma boa notícia. Pode ser que os EUA estejam começando a aprender como comer e adaptar o seu estilo de vida à globalização. A hipótese é de que este aumento da obesidade seja apenas transitório".

Fonte: Da Internet
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